da série leituras

BEM-VINDA AO PLANETA
Por Eugenio Mussak

“Porque o que dá a verdadeira dimensão de um lugar,
seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto
que ele é grande, mas o quanto que ele é justo”.

aspasOlá, Mia, seja bem-vinda. Olha, como você está chegando agora à Terra, vinda de uma galáxia distante, permita-me apresentar-lhe um pouco nosso planetinha, onde, eu sei, você pretende passar um longo tempo, e espero que assim seja, e que você fique por aqui até o século XXII. Olha, nós não somos um planeta muito grande não, principalmente quando comparados às dimensões do Universo. Somos o quinto planeta em tamanho, girando ao redor de uma estrela de quinta grandeza, que chamamos Sol. Pois é, somos um planeta pequeno, imagine então cada pessoa que vive aqui como é diminuta, apesar de haver gente que se acha maior que o planeta. Você vai conhecer uns assim.

Mas isso não deve nos deixar mal, sabe por que? Porque o que dá a verdadeira dimensão de um lugar, seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto que ele é grande, mas o quanto que ele é justo. E, nesse particular, preciso te explicar que aqui você vai encontrar muita gente sendo injusta com outras pessoas e com a Natureza, mas vai encontrar também, felizmente, uma quantidade ainda maior de pessoas querendo só o bem, sempre agindo de maneira correta e justa. Em vários momentos você terá que se posicionar, escolher seu lado. Mas estou certo que você vai fazer as escolhas certas. E vai ajudar este planetinha a ficar maior, no sentido que mais interessa.

Sabe, ainda outro dia eu conversei com umas pessoas muito jovens, e fiquei preocupado com o pensamento delas. Disseram que não queriam trazer ninguém novo a este nosso planeta, porque aqui há mais sofrimento que alegria, e eles não queriam ser responsáveis por ninguém, só por eles mesmos. E eu fiquei refletindo se essa não era uma posição, digamos, conformista. Afinal, todos sabemos que não há lugares perfeitos, e que as dificuldades são naturais, e mais, são até boas, porque nos ajudam a crescer à medida que as enfrentamos e as resolvemos.

Quando disseram que neste mundo tem muita gente fazendo coisas ruins, como guerra, preconceito, segregação e injustiça, eu perguntei se eles faziam essas coisas. Eles disseram que não, que eles eram ‘do bem’. “Então” – perguntei –, “Gente ‘do bem’ não traz gente ‘do bem’?”. E eles ficaram só me olhando, e pensando.

Olha, tem muita gente legal trazendo mais gente legal e este planetinha está ficando melhor, acredite. Atualmente temos menos fome, violência, sofrimento e injustiça do que antes. Só que agora todos ficamos sabendo de tudo isso, porque temos algo que antes não existia: informação. E esses avanços ocorreram porque muita gente boa já passou por aqui, e milhões de outras continuam trabalhando para deixar este mundo melhor todos os dias. Os que remam em contrário são bem menos, bote fé nisso. Só que eles fazem muito barulho. Por isso precisamos aumentar o número daqueles que puxam a corda da vida para o lado certo. Você veio para ajudar, por isso repito, seja muito bem-vinda. Tua vida vai fazer sentido porque você vai deixar este planeta melhor, puxando a corda para o lado bom.

Aquelas pessoas disseram também que às vezes não viam sentido na vida, e quando eu perguntei se eles não achavam que a vida, em si mesma era um sentido, eles não concordaram, e me chamaram de romântico. No fundo achei bom ser chamado de romântico…

Aliás, encontrar um sentido para a vida sempre foi a grande preocupação dos habitantes deste planeta, chamados de humanos. Por isso criamos algumas áreas do entendimento que têm, em sua origem, a finalidade de nos explicar qual o sentido da vida, essa grande incógnita. Essas áreas são quatro. Uma chama-se filosofia, que procura olhar a vida através reflexão e da razão. Outra é a religião que utiliza como ferramenta a fé e a esperança para explicar nossa existência. E ainda temos a ciência, que se baseia na suspeita e na pesquisa para criar teorias que explicam as coisas. E, por fim, existe a arte, que vai pelo caminho da sensibilidade para nos fazer viver melhor. Qual delas tem razão? Ora, todas. Uma complementa a outra.

Para que você entenda melhor, deixa eu te falar de quatro pessoas importantes que viveram antes, algumas há muito tempo. Primeiro um grego conhecido por Ari, cujo nome certo era Aristóteles. Ela era filósofo. Um dos maiores. Em uma carta que ele escreveu para seu filho, disse que a finalidade da vida é procurar o bem. Que não importa o que façamos, qual seja nosso trabalho, sempre temos que ter em vista fazer o bem aos demais. E que esta seria a maneira de nós fazermos bem a nós mesmos, pois estamos todos unidos, nesta vida.

O outro é Albert, um alemão mais conhecido pelo sobrenome, Einstein, um grande cientista. Foi ele quem disse que tudo é relativo, e que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Mas também foi ele quem disse que a luz que as pessoas devem usar para iluminar seu caminho deve vir da bondade, da verdade e da beleza. Legal, ele, não é mesmo? Queria colocar suas equações a serviço da vida. Quero te contar também sobre o Buonarroti Simoni, um italiano que entrou para a história com seu primeiro nome, Michelangelo. Ele foi um escultor genial e um pintor maravilhoso. Um artista completo. Pois uma vez ele disse que sua missão era libertar a vida de onde ela estava aprisionada. Quando olhava para um bloco de mármore, por exemplo, dizia que ali estava uma escultura extremamente bela, e que a ele cabia apenas retirar os excessos. E era o que fazia. Ele também deixou este mundo melhor. Está entendendo agora o que é ter sentido na vida?

Por último, quero te contar de um judeu chamado Jesus, que é conhecido por Cristo, que não é seu sobrenome, mas uma espécie de título, de alguém que é portador da verdade, um messias, por assim dizer. Ele viveu o tempo todo falando com as pessoas, e sabe qual era a mensagem dele, minha querida? Era só uma: que cada pessoa deveria amar as outras pessoas, mesmo que elas acreditem em outras coisas, tenham outros hábitos e a cor de suas peles seja de tons diferentes, pois, no fundo, somos todos irmãos. Ele insistia na força do amor, esse sentimento que tem um poder incalculável de transformar o homem e o planeta inteiro. Sim, este planetinha chamado Terra poderia ser um lugar muito melhor se essa ideia fosse aplicada para valer. Sabe por que? Porque amar o semelhante significa conviver, respeitar, compreender, cuidar, perdoar. Não é tudo de bom?

Pois é. Eu não sou filósofo, nem cientista, nem artista, e muito menos um homem santo. Mas sou um curioso. Sabe o que é ser curioso? É reconhecer que sabe pouco, sempre busca aprender, e quanto mais aprende mais se dá conta como ainda tem coisas para aprender neste pequeno planeta cheio de mistérios. Espero que você seja muito curiosa também. Curiosa e transgressora, que é o único jeito de fazer a diferença por aqui.

E olha, trate de viver cada momento intensamente, pois a vida é feita exatamente desses pequenos pedaços de tempo que passam muito rápido e, se não formos curiosos e espertos, eles fogem de nós. Estude bastante, mas não deixe de ir às festas. Visite museus e vá ao cinema, aprenda a resolver equações com duas incógnitas e a surfar ondas de dois metros. Coma salada e tome sorvete. Seja amiga de seus pais, dos professores, de seus coleguinhas e dos cachorros e de outros bichinhos. Eles darão alegria à sua vida.

Aproveite cada um desses momentos para aprender algo novo, imaginar outras possibilidades, fazer coisas úteis e, acima de tudo, amar muito. O mundo ama quem ama o mundo. Viva sempre apaixonada. Talvez você não tenha se dado conta ainda, mas você está aqui a convite do amor. Aliás, você é o resultado de um ato de amor.

Por tudo isso, Mia (aliás, que nome lindo você tem: Mia. Objetivo e cheio de personalidade), você é muito bem-vinda, e espero que você seja capaz de se maravilhar a cada dia com cada beleza deste planeta e se indignar com cada injustiça. E que use sua força, que é imensa, para deixar nosso mundo ainda mais bonito e cada vez mais justo. E conte comigo, até porque eu estou contando com você. Ah, esqueci de me apresentar, desculpe. Cabeça a minha… Meu nome é Eugenio, sou seu avô, e você acabou de nascer.

Eugenio Mussak escreveu esta carta na Revista Vida Simples de fevereiro de 2014, para sua neta que acabava de nascer.
http://eugeniomussak.com.br

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