o ensaio e o improviso

O paradoxo é só aparente: solidez e leveza, exercício e imprevisto, ensaio e improviso, como o músico ensinou que podia haver. Mistura mágica com intimidade, liberdade, risco e telepatia, teclados com sanfona, escaleta, flautas, trompete, cavaquinho, contrabaixo, bateria, percussão, forró, baião e xaxado vindos direto do sertão de Alagoas para encontrar as vanguardas, bruxaria, concretismo e um pouco do silêncio imaginário de John Cage, quatro minutos e 33 segundos de alguma coisa, qualquer coisa.

Precisa tempo, dores, quedas, decepções, expectativas desfeitas e algumas noites de digestão para aprender o que aquele mestre de camisa estampada e barbas brancas de profeta parece saber desde sempre. Na lógica dele, que mistura a textura do jazz com a ginga dos melhores sambas, a gente só atinge a liberdade que permite improvisar quando trabalha muito, e com muita disciplina.

Faz todo sentido.

À primeira vista um não combina com o outro, a estabilidade não condiz com o movimento, a harmonia não suporta o inesperado, a poesia não cabe no cálculo. À primeira vista, mas não depois, um dia mais tarde, quando a gente enfim percebe que precisa ter estabilidade para deixar fluir, treinar duro para invocar um acorde, uma frase, um encontro ou um gesto sem aviso prévio, acreditar nas palavras alheias para tornar as próprias palavras mais serenas, e também os atos, os rompantes, as dúvidas e as esperas.

Porque os atos, os rompantes, as dúvidas e as esperas torturam menos em dias de equilíbrio na corda bamba da existência, em meses de esperança no tempo e confiança no bom senso, em anos de crença em Deus e fé na imaginação, que é aquela coisa: se um dia a gente envelhece por dentro, a imaginação, farta dos nossos desprezos de velho bobo, parte com o tio Celestino em busca de cérebros mais elásticos.

À primeira vista, um não combina com o outro, tempo e imaginação, fé e bom senso, equilíbrio e rompante, louca e casa, desprezo e tio Celestino. À primeira vista, mas não depois, dois ou dez anos depois, quando a gente enfim percebe a profundidade do buraco, o tamanho do rombo, a envergadura do sentimento, a intensidade do vazio e a grandeza do encontro, ou o contrário, percebe que pouca coisa é grave, quase nada. Dois ou dez anos depois, a gente enfim entende que o paradoxo entre solidez e leveza, ensaio e improviso, exercício e imprevisto, definitivamente, é só aparente.

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