sobre a cronista que aqui escreve

Quem tem a escrita por dever, ofício, vocação ou urgência sabe que escrever muda, um pouco que seja [quase sempre muito], a vida da gente. Quando comecei a publicar as crônicas que produzia, era um domingo de sol, daqueles que enchem a agenda de alegria. Por obra de três colegas jornalistas, eu assumia o compromisso, sabe-se lá com a cabeça em qual lugar, de editar regularmente no jornal do final de semana os textos antes guardados em uma série de cadernos escritos a lápis.

De lá pra cá, dez anos, dois livros e não faço ideia quantas crônicas depois, ganhei amigos e leitores. Recebi mensagens acompanhadas de uma satisfação imensa. Anotei promessas, angústias e uma lista de dez coisas para fazer antes de morrer. Retratei o direito de sonhar, a menina futebol clube [era assim, desde sempre, a minha amiga], amores, olheiras, encontros e desencontros, rotinas, os caminhos do amor e determinadas ausências.

Aprendi um pouco [ainda falta] sobre as escolhas e o próprio verbo aprender, aceitar as diferenças, ter um olhar afetuoso sobre os fatos, as verdades, as pessoas, os encontros, o trabalho, a coisa toda. Prestei minha pequena homenagem aos tímidos, aos contraditórios, à memória do escritor que lutou fisicamente com cada palavra, e foi quase sempre a palavra que venceu. Celebrei as melhores noites, a simplicidade, o vento sul, a fé no movimento e a esperança em dias melhores.

Lembrei do tempo em que queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível todos no mesmo endereço. Declarei apoio ao boleiro que, num ato original e bem-humorado contra o racismo, comeu a banana, 80 calorias em 100 gramas de potássio, água, fibras e vitaminas A e C jogadas da arquibancada por um torcedor que, sem nenhuma sutileza, dizia:

– Macaco.

Se como dizia o filósofo o mal do mundo é a tagarelice, eu virei o mal do mundo em pessoa, despejando em crônicas a mulher que havia na ponte, o modo como a gente conserta as coisas ou as perde de uma vez, a necessidade de dispersão, as palavras e as coisas, as chegadas, as partidas e os dias em que não dá tempo, life is very short, there’s no time for fussing and fighting, as canções, o esforço constante de caminhar dentro do labirinto, as questões, os parênteses, o fim das contas, o início todo.

[Porque – vocês sabem – bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, a conversa de uma madrugada inteira ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo].

Na revista Rubem, acabo de completar um ano. Um ano de discos, livros, desejos, cheios e vazios, alegrias e expectativas, catavento e girassol, um ano de histórias e imaginações e expectativas e música em Cambria corpo 12. Um ano de samambaias, da horta vigorosa feita de manjericão, hortelã, alecrim, pimenta e nada de coentro, do Telescópio e do outro Kinguio, maior e mais clarinho. Um ano das couves líricas que o velho Braga via com suave emoção, das exclamações patéticas a respeito dos tomates estarem pela hora da morte, da fragrância das coisas nascidas na terra, das ervas misteriosas e o constrangimento amarelo dos abacaxis que ele descrevia daquele modo bonito de descrever dele.

Quanto aos cronistas, é exatamente como o velho Braga dizia: que eles durmam em paz. Amém.

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