parar [porque às vezes precisa]

Ao olhar de longe, percebi que precisava voltar, pelo menos de vez em quando, ao tempo em que deixei de ter pressa. Era um dia qualquer, uma quarta-feira, talvez, daquelas que começam, correm e terminam, como os dias comuns começam, correm e terminam. Eu andava às voltas com o trabalho em excesso, um vazio ligeiro e uma certa inquietação que fazia doer a coluna, os ombros e as têmporas.

O trânsito estava aquele trânsito de sempre, de carros devagares na pista dos carros velozes, de ônibus verdes e tortos na pista dos ônibus verdes e tortos, do sol na janela e a minha dose diária de alegria, do rádio ligado na canção que não canso de ouvir e aquele gosto bom de morar perto da praia.

Era preciso parar o mundo, por uns minutos que fosse, descer, ver a Ilha e seus contornos, sentir o vento sul e o movimento que guarda a melancolia dos domingos, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, assistir à vida e seus contornos, a proximidade, a paixão e o vício nos lugares em que antes só havia distância, antipatia e indiferença.

Era preciso, acima de tudo, desaprender do costume de não olhar para fora, de tomar café correndo por causa do atraso, de ouvir sobre a violência e aceitar estatísticas, as besteiras das músicas e a morte lenta dos rios, de ser ignorado quando precisava tanto ser visto, de pagar mais do que as compras valem e todas aquelas outras coisas bonitas sobre as quais dizia aquele texto da Marina Colasanti.

O tempo da delicadeza, quando olhei de longe, parada como às vezes deve ser, pareceu mais capaz, mesmo que nem sempre, de transformar o vazio, os desejos, as dores e as dúvidas em outra coisa. A outra coisa era [como ainda é] a vontade de viver os temas essenciais da vida com o corpo todo, com toda a calma do mundo.

sobre a cronista que aqui escreve

Quem tem a escrita por dever, ofício, vocação ou urgência sabe que escrever muda, um pouco que seja [quase sempre muito], a vida da gente. Quando comecei a publicar as crônicas que produzia, era um domingo de sol, daqueles que enchem a agenda de alegria. Por obra de três colegas jornalistas, eu assumia o compromisso, sabe-se lá com a cabeça em qual lugar, de editar regularmente no jornal do final de semana os textos antes guardados em uma série de cadernos escritos a lápis.

De lá pra cá, dez anos, dois livros e não faço ideia quantas crônicas depois, ganhei amigos e leitores. Recebi mensagens acompanhadas de uma satisfação imensa. Anotei promessas, angústias e uma lista de dez coisas para fazer antes de morrer. Retratei o direito de sonhar, a menina futebol clube [era assim, desde sempre, a minha amiga], amores, olheiras, encontros e desencontros, rotinas, os caminhos do amor e determinadas ausências.

Aprendi um pouco [ainda falta] sobre as escolhas e o próprio verbo aprender, aceitar as diferenças, ter um olhar afetuoso sobre os fatos, as verdades, as pessoas, os encontros, o trabalho, a coisa toda. Prestei minha pequena homenagem aos tímidos, aos contraditórios, à memória do escritor que lutou fisicamente com cada palavra, e foi quase sempre a palavra que venceu. Celebrei as melhores noites, a simplicidade, o vento sul, a fé no movimento e a esperança em dias melhores.

Lembrei do tempo em que queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível todos no mesmo endereço. Declarei apoio ao boleiro que, num ato original e bem-humorado contra o racismo, comeu a banana, 80 calorias em 100 gramas de potássio, água, fibras e vitaminas A e C jogadas da arquibancada por um torcedor que, sem nenhuma sutileza, dizia:

– Macaco.

Se como dizia o filósofo o mal do mundo é a tagarelice, eu virei o mal do mundo em pessoa, despejando em crônicas a mulher que havia na ponte, o modo como a gente conserta as coisas ou as perde de uma vez, a necessidade de dispersão, as palavras e as coisas, as chegadas, as partidas e os dias em que não dá tempo, life is very short, there’s no time for fussing and fighting, as canções, o esforço constante de caminhar dentro do labirinto, as questões, os parênteses, o fim das contas, o início todo.

[Porque – vocês sabem – bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, a conversa de uma madrugada inteira ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo].

Na revista Rubem, acabo de completar um ano. Um ano de discos, livros, desejos, cheios e vazios, alegrias e expectativas, catavento e girassol, um ano de histórias e imaginações e expectativas e música em Cambria corpo 12. Um ano de samambaias, da horta vigorosa feita de manjericão, hortelã, alecrim, pimenta e nada de coentro, do Telescópio e do outro Kinguio, maior e mais clarinho. Um ano das couves líricas que o velho Braga via com suave emoção, das exclamações patéticas a respeito dos tomates estarem pela hora da morte, da fragrância das coisas nascidas na terra, das ervas misteriosas e o constrangimento amarelo dos abacaxis que ele descrevia daquele modo bonito de descrever dele.

Quanto aos cronistas, é exatamente como o velho Braga dizia: que eles durmam em paz. Amém.