um olhar sobre as coisas [ou pequena crônica sobre a perspectiva]

Parece ser a ordem natural. Em algum momento da vida, depois de uma noite tranquila ou de um dia de eficiência comprovada, o que nasceu intenção vira projeto e depois hábito, palavras agarradas no teclado de computador viram texto e quem sabe livro, saudade vira cansaço e depois seguir em frente. Durante um projeto modesto ou num voo ambicioso, o que nasceu dúvida vira impressão e quem sabe certeza, compreender, dizer sim, descansar, confiar, simplesmente, sem histórico da escola, sem nada consta do cartório, sem fiança, penhor ou caução, acreditando nas palavras e nas pausas, porque sim e pronto.

Em algum momento da vida, o que era possibilidade vira determinação e a gente, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do jeito de levar, das manias engraçadas, de tudo. Ou então é o contrário, e o que nasceu afeto vira uma gélida indiferença, a realidade assume como reais os medos que eram imaginários, cansaço, dor, as ausências e as canções, pagar pra ver o invisível e depois enxergar que é uma pena.

[Não cabe como rima de um poema, de tão pequena].

Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor acaba em outra coisa. Daí a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Daí, depois de uns meses às vezes anos, o inverno acaba, as aflições ficam menores e a gente enfim aprende a relativizar, negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las, todas, como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato.

É como escreveu o autor de nariz adunco e sobrenome ligeiramente familiar em uma página a respeito da tristeza pelos não acontecidos: frustração, por definição, decorre de expectativas não atendidas, de vontades não realizadas, desperta perda de esperanças e uma desagradável sensação de injustiça. Mas, como ele mesmo emenda, dar um crédito positivo aos não acontecimentos significa ter o espírito mais aberto, minimizar o peso das derrotas e dar mais leveza à alma.

Em outro momento ou de um lugar diferente, uma angústia sufocante não passa de nada, o pior dos ressentimentos não passa de uma lembrança vaga, um monstro gigante não passa de um ciuminho bobo, uma paixão incurável não passa de um amontoado de memórias brandas. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso.

Talvez seja mesmo um pouco de Física, Albert Einstein e a teoria segundo a qual dois pontos de vista diferentes oferecem visões diversas, e ambas perfeitamente aceitáveis, de um mesmo objeto. Talvez seja ainda como as pinturas da exposição de outro dia, M.C. Escher e seus desenhos baseados na geometria, na perspectiva e na demonstração de que uma mesma cena pode ser explorada por caminhos diferentes.

Do mesmo modo que altura, distância, gravidade e profundidade estão sujeitas às leis que regem a matéria, amor, trabalho, esperança, vazio, riso, coração partido, raiva ou afeto têm aparência e essência determinadas pela passagem do tempo e pela curvatura do espaço. Depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

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parar [porque às vezes precisa]

Ao olhar de longe, percebi que precisava voltar, pelo menos de vez em quando, ao tempo em que deixei de ter pressa. Era um dia qualquer, uma quarta-feira, talvez, daquelas que começam, correm e terminam, como os dias comuns começam, correm e terminam. Eu andava às voltas com o trabalho em excesso, um vazio ligeiro e uma certa inquietação que fazia doer a coluna, os ombros e as têmporas.

O trânsito estava aquele trânsito de sempre, de carros devagares na pista dos carros velozes, de ônibus verdes e tortos na pista dos ônibus verdes e tortos, do sol na janela e a minha dose diária de alegria, do rádio ligado na canção que não canso de ouvir e aquele gosto bom de morar perto da praia.

Era preciso parar o mundo, por uns minutos que fosse, descer, ver a Ilha e seus contornos, sentir o vento sul e o movimento que guarda a melancolia dos domingos, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, assistir à vida e seus contornos, a proximidade, a paixão e o vício nos lugares em que antes só havia distância, antipatia e indiferença.

Era preciso, acima de tudo, desaprender do costume de não olhar para fora, de tomar café correndo por causa do atraso, de ouvir sobre a violência e aceitar estatísticas, as besteiras das músicas e a morte lenta dos rios, de ser ignorado quando precisava tanto ser visto, de pagar mais do que as compras valem e todas aquelas outras coisas bonitas sobre as quais dizia aquele texto da Marina Colasanti.

O tempo da delicadeza, quando olhei de longe, parada como às vezes deve ser, pareceu mais capaz, mesmo que nem sempre, de transformar o vazio, os desejos, as dores e as dúvidas em outra coisa. A outra coisa era [como ainda é] a vontade de viver os temas essenciais da vida com o corpo todo, com toda a calma do mundo.

sobre a cronista que aqui escreve

Quem tem a escrita por dever, ofício, vocação ou urgência sabe que escrever muda, um pouco que seja [quase sempre muito], a vida da gente. Quando comecei a publicar as crônicas que produzia, era um domingo de sol, daqueles que enchem a agenda de alegria. Por obra de três colegas jornalistas, eu assumia o compromisso, sabe-se lá com a cabeça em qual lugar, de editar regularmente no jornal do final de semana os textos antes guardados em uma série de cadernos escritos a lápis.

De lá pra cá, dez anos, dois livros e não faço ideia quantas crônicas depois, ganhei amigos e leitores. Recebi mensagens acompanhadas de uma satisfação imensa. Anotei promessas, angústias e uma lista de dez coisas para fazer antes de morrer. Retratei o direito de sonhar, a menina futebol clube [era assim, desde sempre, a minha amiga], amores, olheiras, encontros e desencontros, rotinas, os caminhos do amor e determinadas ausências.

Aprendi um pouco [ainda falta] sobre as escolhas e o próprio verbo aprender, aceitar as diferenças, ter um olhar afetuoso sobre os fatos, as verdades, as pessoas, os encontros, o trabalho, a coisa toda. Prestei minha pequena homenagem aos tímidos, aos contraditórios, à memória do escritor que lutou fisicamente com cada palavra, e foi quase sempre a palavra que venceu. Celebrei as melhores noites, a simplicidade, o vento sul, a fé no movimento e a esperança em dias melhores.

Lembrei do tempo em que queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível todos no mesmo endereço. Declarei apoio ao boleiro que, num ato original e bem-humorado contra o racismo, comeu a banana, 80 calorias em 100 gramas de potássio, água, fibras e vitaminas A e C jogadas da arquibancada por um torcedor que, sem nenhuma sutileza, dizia:

– Macaco.

Se como dizia o filósofo o mal do mundo é a tagarelice, eu virei o mal do mundo em pessoa, despejando em crônicas a mulher que havia na ponte, o modo como a gente conserta as coisas ou as perde de uma vez, a necessidade de dispersão, as palavras e as coisas, as chegadas, as partidas e os dias em que não dá tempo, life is very short, there’s no time for fussing and fighting, as canções, o esforço constante de caminhar dentro do labirinto, as questões, os parênteses, o fim das contas, o início todo.

[Porque – vocês sabem – bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, a conversa de uma madrugada inteira ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo].

Na revista Rubem, acabo de completar um ano. Um ano de discos, livros, desejos, cheios e vazios, alegrias e expectativas, catavento e girassol, um ano de histórias e imaginações e expectativas e música em Cambria corpo 12. Um ano de samambaias, da horta vigorosa feita de manjericão, hortelã, alecrim, pimenta e nada de coentro, do Telescópio e do outro Kinguio, maior e mais clarinho. Um ano das couves líricas que o velho Braga via com suave emoção, das exclamações patéticas a respeito dos tomates estarem pela hora da morte, da fragrância das coisas nascidas na terra, das ervas misteriosas e o constrangimento amarelo dos abacaxis que ele descrevia daquele modo bonito de descrever dele.

Quanto aos cronistas, é exatamente como o velho Braga dizia: que eles durmam em paz. Amém.

sobre a simplicidade

Talvez fosse o verão, ou então a bicicleta, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, a pintura nova das paredes, as mudanças no armário, a rima da moda segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você; não mesmo.

Talvez fossem as celebrações, ou então a própria vida, as canções, as boas companhias, os parceiros que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez fossem os astros.

Talvez fosse o contexto, trocar o endereço, cometer pequenos pecados, sambar e balançar um mundo inteiro de sambas e balanços, investir em simplicidade e silêncio, “Ive Brussel”, os pratos da cozinha, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora simplesmente porque sim, uma viagem anotada na agenda, o resto dos planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre.

Talvez fosse o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa entrevista qualquer: – Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Talvez fosse o filme da terça anterior, o sujeito de meia idade às voltas com uma traição que precisava ser digerida, uma criança e dois adolescentes mais ou menos desajustados, a esposa num coma sem volta, uma vida inteira de muito trabalho, pouco luxo e contenções em excesso, o mundo todo prestes a desabar sobre seu cabelo cinza.

Matt King, o personagem central de “Os Descendentes”, podia ser eu, você, o vizinho do andar de cima, qualquer um. Quando corre desajeitado pelas ruas do ensolarado balneário em que vive, resume os caminhos de quem tenta, do mesmo modo desajeitado, correr atrás de respostas. Quando rebola para se aproximar das duas filhas, materializa as barreiras que, cada um de nós, uma ou mais vezes, enfrentou diante de uma conversa – ou da falta dela.

Quando sai em busca do amante da mulher moribunda, faz rir de tão igual aos que [quem nunca, uma vez que seja?] vasculharam Facebook, Orkut, Twitter, Sonicos e o que mais em busca de evidências ou nem. Quando varia entre vender ou não o imenso terreno virgem e paradisíaco herdado dos avôs, desperta a dureza que é estar dividido entre as posses e o desapego, o dinheiro e as raízes, a ambição e a beleza.

Quando grita com a mulher inerte e, no momento seguinte, é todo ternura, joga luz sobre descontrole e no momento seguinte o sossego, as ofensas e logo o arrependimento, a loucura e, passado o caos interior, a paz. Quando beija a esposa do amante da sua esposa, revela as contradições da dor de cotovelo.

[Doi do cóccix até o pescoço].

Talvez fosse Matt King, ou os legumes, as celebrações, as canções, o contexto ou o texto. Talvez fossem os astros ou então o verão o responsável pela vontade recorrente daqueles dias: leveza, calma, simplicidade, aquela, lembra?, que numa destas ironias da vida a gente trabalha duro para encontrar.