faxina

Tem dias em que a gente olha em volta e é outra coisa: os pisos, azulejos, estantes, gavetas, armários e ideias exigem arrumação imediata. A poeira da obra em frente ocupa a casa toda como se não houvesse mais nada, cadeira, sofá, almofada, caixa, livro, panela, videogame, a mesa nova, a casa toda. Até as plantas parecem menos verdes, samambaia, zamioculcas e o pequeno pé de pitanga à espera de um pouco de ar fresco, exatamente como a gente, à espera de ar.

Então, como quem não quer nada [mas quer], a gente arrasta os móveis, reorganiza as cadeiras, arruma os retratos, separa o lixo, troca Os Sofrimentos do Jovem Werther pelo Guia da Mulher Superior, a estabilidade pelo risco, a saudade pelo movimento, o apego pela suavidade, o silêncio por uma canção de mudança.

A cada pedaço que revisita, revisita também uma memória, uma história, um encontro, um desejo ou então não pensa em nada, limpa limpa limpa esfrega esfrega esfrega espera um pouco pra secar, e o dia voa, como voam os melhores momentos.

Às vezes, as lições são preciosas: viver de verdade as mudanças e as contradições, saborear o fim de determinados ciclos e o início de outros com os sentidos todos, aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa; porque num dia o amor que era amor se torna só indiferença, e depois mais nada, o vazio se transforma em outro amor, e depois ninguém sabe. Às vezes é só limpeza, cheiro bom, poeira zero, a terapia do balde, a mão imaginária de Deus, aquela coisa.

À moda das melhores terapias, Pinho Sol, disposição, pano, vassoura e desapego limpam, ensinam, ajudam a passar o tempo, inspiram mudanças como se fosse sempre outono, suavizam o peso guardado fora – e quantas vezes dentro, ainda mais. Em alguns casos – alguém disse, com toda a razão – uma faxina estende o prazo de validade da própria vida, sufocada por determinados desapontamentos, alguma melancolia, um ou outro sonho desfeito, a agenda cheia. Uma faxina talvez seja como uma viagem: mesmo as mais curtas ou menos surpreendentes nos transformam, de algum modo, um pouco que seja.

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