sonhos II

Estão todas, ao menos neste texto, a serviço do sonho. A canção diz que cada ser tem sonhos a sua maneira, pedras e britadeira, respiração e desejo, o animal e a sua presa, cada ser tem sonhos a sua maneira. O estudo de psicólogos não lembro de qual país revela que o diferente são as cores: os mais jovens sonham colorido, enquanto os mais velhos sonham preto e branco. As lembranças voltam ao sábado em que fomos ver a casa de 12 quartos que nenhum de nós podia comprar. Certas madrugadas a gente dedica a outro tipo de sonho, um projeto, uma esperança, o cardápio da semana, uma vida inteira junto.

A canção é aquela em Dó, devagar como o modo de viver dos melhores dias, os dois cantores e a parede embalando a volta pra casa, o trânsito ruim, a insegurança de não saber até quando, uma presença indesejada que não parece disposta a dar trégua e a gente não sabe se ignora ou se importa, se insiste ou desiste, se pede outra vez ou nem, deixa pra lá, fecha a porta, larga o osso, encerra o expediente ou o justo o oposto, acredita que ainda compensa, dança ainda apesar dos tropeços, gosta ainda apesar das faltas, perdoa ainda apesar das descrenças.

A pesquisa é daquelas, tão inúteis quanto divertidas [o que não deixa de ser, em si mesmo, uma utilidade]: 1.300 pacientes investigados durante 16 anos sobre qual era a cor dos seus sonhos. A conclusão dos cientistas: 80% dos entrevistados com menos de 30 anos tinham sonhos coloridos. Com o passar dos anos, os sonhos desbotaram e o número caiu gradualmente para 20% entre os sessentões.

As lembranças são aquelas, a casa de 12 quartos que fomos ver na Cidade Alta mesmo que nenhum de nós pudéssemos pagar, uma boa reforma, uma senhora limpeza, duas cadeiras na varanda e meia dúzia de boas ideias. Ideia ainda levava acento, e a gente queria livros pra emprestar, palco pra tocar samba e rock, fogão pra cozinhar, parede pra pendurar quadros, O Livro do Riso e do Esquecimento, a banda, a receita e um original do Daniel Senise ocupariam estante, microfone, prato, parede, biblioteca, varanda, cozinha, sala, a casa toda.

As madrugadas, por sua vez, têm travesseiro, edredom, escuro, os afetos, a simplicidade e o desejo, as palavras inventadas, as canções, os planos para o próximo ano e de preferência boa companhia, o braço forte que envolve o corpo, o sorriso e saber como foi o trabalho, ou então a gente mesmo, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, vinho, liberdade, lembrança, faxina, pizza com Coca Cola e depois chocolate.

[Delícia].

Estão canção, lembrança, pesquisa e madrugadas – pelo menos neste texto – a serviço do sonho, sequência de ideias soltas às quais o espírito se entrega, aquela casa ajeitada com a gente dentro, a vontade de dar certo, a imaginação sobre um futuro que ninguém sabe direito o que reserva, justiça e liberdade, ar puro e nunca mais sofrer de rinite, música o tempo todo, amigos de verdade, o sol, o desapego e a digestão das coisas todas. Ou então são os sonhos a serviço delas, canção, lembrança, pesquisa, madrugadas, essa crônica, a vida toda.

faxina

Tem dias em que a gente olha em volta e é outra coisa: os pisos, azulejos, estantes, gavetas, armários e ideias exigem arrumação imediata. A poeira da obra em frente ocupa a casa toda como se não houvesse mais nada, cadeira, sofá, almofada, caixa, livro, panela, videogame, a mesa nova, a casa toda. Até as plantas parecem menos verdes, samambaia, zamioculcas e o pequeno pé de pitanga à espera de um pouco de ar fresco, exatamente como a gente, à espera de ar.

Então, como quem não quer nada [mas quer], a gente arrasta os móveis, reorganiza as cadeiras, arruma os retratos, separa o lixo, troca Os Sofrimentos do Jovem Werther pelo Guia da Mulher Superior, a estabilidade pelo risco, a saudade pelo movimento, o apego pela suavidade, o silêncio por uma canção de mudança.

A cada pedaço que revisita, revisita também uma memória, uma história, um encontro, um desejo ou então não pensa em nada, limpa limpa limpa esfrega esfrega esfrega espera um pouco pra secar, e o dia voa, como voam os melhores momentos.

Às vezes, as lições são preciosas: viver de verdade as mudanças e as contradições, saborear o fim de determinados ciclos e o início de outros com os sentidos todos, aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa; porque num dia o amor que era amor se torna só indiferença, e depois mais nada, o vazio se transforma em outro amor, e depois ninguém sabe. Às vezes é só limpeza, cheiro bom, poeira zero, a terapia do balde, a mão imaginária de Deus, aquela coisa.

À moda das melhores terapias, Pinho Sol, disposição, pano, vassoura e desapego limpam, ensinam, ajudam a passar o tempo, inspiram mudanças como se fosse sempre outono, suavizam o peso guardado fora – e quantas vezes dentro, ainda mais. Em alguns casos – alguém disse, com toda a razão – uma faxina estende o prazo de validade da própria vida, sufocada por determinados desapontamentos, alguma melancolia, um ou outro sonho desfeito, a agenda cheia. Uma faxina talvez seja como uma viagem: mesmo as mais curtas ou menos surpreendentes nos transformam, de algum modo, um pouco que seja.

da série leituras

RECADO DE PRIMAVERA
Por Rubem Braga, setembro de 1980

aspasMeu caro Vinicius de Moraes

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.

Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

das coisas que a gente aprende com as flores

Pouca coisa no mundo lembra delicadeza e doçura de modo tão imediato quanto as flores. Diante das flores, a gente pensa em açúcar, afeto e gentileza, aprende sobre a espera, a regadura e o melhor dos remédios, entende o ritmo, a suavidade e as possibilidades da natureza, percebe o caminho, o processo e o movimento das sementes, coleciona lições.

[Drummond dizia, com toda razão, que entre a raiz e a flor há o tempo].

Com os girassóis, a gente conclui que os dias azuis e amarelos sorriem mais e a gente sorri com eles e decide que faz bem ser um pouco heliotrópico, comportamento que, segundo a biologia, têm os vegetais que por motivos diversos se voltam para o sol. Com as rosas, descobre o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois da outra e às vezes os ais – e ainda tem o Rosa, nome próprio com nome de flor, que escreveu que o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que vão sempre mudando.

Com as margaridas, percebe os capítulos que a vida cria em torno de outros capítulos, o branco, o amarelo e o laranja dispostos em círculo, um depois do outro, capazes de trazer de volta um pouco da inocência das crianças, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.

Com as tulipas, sonha com o amor perfeito e estuda até um pouco de geografia quando contam que elas vieram da Turquia, não da Holanda. Com as orquídeas, ingrediente da bebida que dava força e virilidade aos astecas e curava tosses e doenças pulmonares dos chineses, a gente acolhe o que é elegante, exótico e sensual, e treina um pouco do verbo cultivar: quanto de luz, rega moderada e adubação periódica com substratos apropriados, um diferente para cada fase do desenvolvimento.

Com as violetas, por fim, que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos, a gente pinta de colorido a casa de paredes brancas e enfeita as estantes com a espécie que jardineiros, paisagistas e floristas acreditam ser o símbolo da lealdade e da modéstia, três meses de descanso e depois flores outra vez, exatamente como Cecília Meirelles escreveu que seria, girassol, rosa, margarida, tulipa, orquídea, violeta e gente:

“Aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar
E voltar sempre inteira”.