chorador destampado

“Mas tudo isso porque Gal, Zeca e eu andamos muito à flor da pele”.
Zuenir Ventura

Dizem que eu choro muito, e é verdade. Choro no cinema, nos poemas, em certos trechos de determinados livros, diante de algumas ausências. Às vezes até em final de novela eu choro. Choro de raiva, de desapontamento, de felicidade ou em momentos singulares de um dia especialmente bom, um propósito cumprido, um afeto correspondido, um encontro bem-sucedido, minha hora favorita aos sábados, uma declaração de amor, a primeira frase que a senhorinha leu tão logo aprendeu a ler, o silêncio sossegado que construímos para descansar do barulho que vem de fora.

Há explicações mais ou menos inventivas e motivos abrigados tanto na ciência quanto na poesia. Segundo os fisiologistas, por exemplo, o choro é a resposta da associação feita pelo sistema límbico entre os estímulos emotivos que recebemos e determinados sentimentos guardados no cérebro, tristeza, doença, indignação, insegurança, medo ou alegria. Para os artistas, ao contrário, chorar costuma estar exclusivamente dentro, no nó das coisas que passaram, nas dores que ainda virão, nos amores desfeitos ou nos desencontros, no que falta e nos dias em que não dá tempo nem de dizer adeus.

Para os químicos, a fórmula do que escorre pelos olhos é simples: água, muco, lipídios, proteínas, magnésio, potássio, enzimas e um pouco de gordura e, de acordo com os biólogos, apenas nos humanos, entre todas as espécies do reino animal.

Nas contas – e aqui entram os estatísticos – aproximadamente 75% dos homens e 85% das mulheres sentem-se melhor depois do choro, enquanto na matemática dos hormônios chorar libera substâncias como a leucina-encefalina, a noradrenalina e a serotonina, que suavizam a angústia, aliviam a tensão e proporcionam uma sensação semelhante a de uma anestesia leve.

[E tem ainda a arte da ironia, segundo a qual chorar lágrimas de crocodilo significa parecer desolado por fingimento, porque os répteis, que chegam a ter 80 dentes, quando comem uma presa engolem sem mastigar. Sua mandíbula comprime a glândula lacrimal e, enquanto devoram a vítima, eles lacrimejam].

Minha mãe tem outra explicação para o hábito que acompanha meus dias desde os tempos de criança, e pode ser também o seu, o de todo mundo:

 Ela tem o chorador destampado.

O chorador, a julgar pela tese de minha querida mãe, é o órgão do corpo responsável pela produção daquela sensação de que não é possível segurar as lágrimas. Acompanhado do adjetivo destampado, quer dizer que ele apresenta um defeito na válvula que controla o fluxo do choro, um defeito de nascença, como um osso torto ou predisposição para glaucoma, sensibilidade demais ou neurotransmissores em festa, vontade de lavar a alma ou falta do que fazer.

Nos autos da família consta que um dia eu estava chorando copiosamente e, ao me perguntarem o que havia acontecido, eu parei um pouco, pensei e voltei a chorar, simplesmente porque não lembrava o motivo inicial do choro. De lá para cá, o drama virou comédia – a maioria acha graça; eu também – e não se passa um par de meses sem que a história volte a animar convidados, parentes, vizinhos, conhecidos ou nem tanto.

A boa notícia é que chorar faz bem à saúde quase tanto quanto rir, porque esvazia o coração do que pesa, porque remove a tensão acumulada, porque libera substâncias químicas que dão a sensação de alívio imediato. Até o velho Braga colaborou comigo e meu chorador destampado, obviamente sem saber. Consta em seus autos familiares que certa vez o pequeno Rubem chorava sentado na varanda da casa de Cachoeiro. Chorava sem parar, cabeça baixa entre os braços, enquanto as visitas e os moradores iam e vinham. Até que alguém parou e perguntou por que chorava. Soluçando ainda, ele respondeu:

– Eu já se me esqueci…

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