tatuagem

Me dizem que é preciso coragem para ter uma tatuagem, imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteira que num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber. Respondo que sim, verdade, precisa coragem e um pouco de resistência à agonia disfarçada de dor, porque quanto mais definitivas são as escolhas maior seu peso, seu medo, seus ais, ainda mais nestes tempos de aversão ao risco e apego à segurança, de conceitos antigos, nós difíceis de desatar, lembranças que não desmancham, manias velhas, mundo torto.

Mas – emendo – todas as escolhas são de alguma maneira definitivas, deixam marcas, mesmo as menores: desligar a TV a cabo porque já não há mais quintas de “Men in Trees”, ouvir uma canção alegre no rádio do carro para chegar feliz no trabalho, comer saudável ou caprichar na batata frita, fazer promessa pra Santo Expedito ou esquecer aquela causa aparentemente urgente, mas no fundo ligeiramente ridícula, escolher um roquezinho para embalar os sábados, telefonar para dizer disso, ou o silêncio.

Escolhas, como o tempo e quase todas as canções, não são nem boas nem malvadas; elas perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo, do amor, de tanta coisa que nem cabe. Escolhas nos fazem esquecer rostos, levantar copos, estragar corpos, largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, apagar nomes, deixar os filmes passarem, as músicas tocarem, os retratos sumirem, o relógio engolir as tarefas enquanto uma história de personagens contraditórios toma todo o pensamento.

Escolhas são inevitáveis, às vezes injustas e inconsequentes, às vezes pensadas, às vezes acertadas, às vezes nem uma coisa nem as outras. À sua maneira, e guardadas as proporções que se deve guardar, são como uma flor tatuada na canela, uma estrela grudada no pescoço, um dragão marcado no meio das costas. Porque – alguém já disse, com toda a razão – ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.

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