idade

Há algum tempo, quando ainda frequentávamos o Bar do Simpson, meu amigo perguntou onde estariam as pessoas da nossa idade. Ouvíamos rock, mas talvez fossemos tão antigos e deslocados quanto o delicioso vinil de Frank Sinatra que embala as primeiras linhas deste texto; líamos Aldous Huxley, Herman Hesse e Charles Bukowski, mas tanto As Portas da Percepção quanto O Lobo da Estepe ou os contos de A Mulher Mais Linda da Cidade pareciam confinados a outra época, outro espaço, outro momento.

Queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível ter um e outro e todos na mesma vida, no mesmo beijo, no mesmo endereço, no mesmo dia. Tínhamos mais de mil perguntas sem resposta, mais de 20 anos, mais de 20 muros, raízes na marquise, calma inventada, contas contadas, cores, colírios e delírios, exatamente como na canção.

Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos.

Os amigos estavam de alguma maneira distantes. Dois ou três ainda faziam aviões de papel, usavam Havaianas em dias úteis, amavam como crianças, dormiam até o meio-dia e comiam pizza no café da manhã. Achávamos que eram felizes, porque talvez estivessem ainda no tempo em que era possível amar sem amarras, comer sem culpa, viver sem fígado e sem sapatos desde que houvesse vinho e violão, jogar sinuca como se não existisse mais nada, nem dor nem perigo nem luz pra pagar nem reunião de trabalho; nada.

Os outros estavam no supermercado ou na igreja, meu amigo dizia, aumentando as medidas da cintura e dos quadris, ou mudando pro leste, ouvindo A Arte da Fuga, cuidando dos filhos recém-nascidos ou dos maridos recém-fisgados, talvez, ou assistindo ao canal do tempo na televisão. Achávamos, com um bocado de pretensão, até, que eles viviam as mudanças sem pensar nas contradições, no fim de determinados ciclos, no início de outros, nas transformações de um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa e ponto final.

Andávamos [ou, ao menos, pensávamos que sim] entre os dois ou três e os outros. Tínhamos trabalho e canções, divagações e necessidades, dispersões e obrigações, um pouco de tudo e um monte de nada, Havaianas no supermercado mas sapatos no resto dos lugares, fígado estragado duas vezes por semana mas agenda cheia no resto dos dias, pizza no café da manhã mas carro quebrado, luz queimada e IPTU atrasado na sobremesa.

Em noites como aquela, íamos ao Centro e perguntávamos, a certa altura de copos e garrafas, onde estariam as pessoas da nossa idade. Por alguma razão que não conseguíamos explicar, incomodava ter de um lado os meninos e meninas despreocupados e desapegados que um dia havíamos sido e, do outro, os homens e mulheres que seríamos dali a alguns anos, com três ou quatro fios de cabelos brancos e uma ruga entre os olhos um tanto mais tristes. Àquela época, as rugas que carregávamos eram outras.

Anúncios

Um comentário sobre “idade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s