o futebol e eu

Houve um tempo em que eu gostei de verdade de futebol. Em dias como estes, quando o verde e o amarelo tomavam conta das ruas, das roupas, das casas e das almas, assistia em bando aos jogos, com dedicação, fervor e alguma propriedade, até. Depois das partidas, andávamos até o bairro ao lado para celebrar as vitórias, afogar as derrotas e suavizar as mágoas, que àquela altura pareciam imensas, mesmo que não fossem: um escanteio diante do grande amor, um impedimento que fazia doer os cotovelos, um ataque difícil de engolir, uma bola fora qualquer.

Éramos menos complicados e mais leves, talvez menos endurecidos pelos dias e respectivas noites, mais capazes de perdoar sem restrições, mais dispostos a amar incondicionalmente, mais propensos a querer mesmo as coisas mais distantes – e conseguir, acho que de tanto que queríamos. Atravessávamos a ponte que margeia a praia no tom dos que acreditam ser o desapego a melhor ideia do mundo. Íamos sem tralha nem excesso, sem controle nem exigência, livres das predisposições e dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, dos desafetos que envenenam o corpo, do excesso de razão que atrapalha a visão; livres como no poema, livres.

Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda.

Hoje aquelas tardes são apenas memórias meio desbotadas, e o futebol vagueia pela sala de televisão como um tema corriqueiro, mas distante. Gosto do momento do hino e dos pênaltis, quando há. Xingo o juiz, quando preciso. Torço segundo orientações, exatamente como a minha amiga. De resto, enquanto corre o jogo, folheio displicentemente as revistas da semana e deixo o pensamento solto, aqui e ali, na alegria, nas tarefas que exigem disciplina, na receita a ser testada, no movimento das coisas, no modo coletivo de construir as vitórias.

Às vezes penso naquele filme que é um pouco sobre futebol e talvez muito sobre a esperança, virtude que dizem dá o dom de suportar o mundo. Às vezes, porque os guerreiros não desistem apesar do ambiente hostil, as questões são outras, de tempos igualmente antigos: como saber sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que melhor deixar pra lá, largar o osso, encerrar o expediente? Como, ao contrário, acreditar que ainda deve, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas? Quando como onde por que a gente descobre que não pode mais?

Às vezes, diante da devoção a um time, penso nas causas que a gente alimenta, a filiação a uma ideia, uma ideologia ou então a um amor, que o escritor ensinou ser tão mais quanto mais aprende a rir diante de seus sonhos demasiado altos, de suas confusões e até de seus sucessos. Às vezes penso na própria alegria, rir de tudo, de fato, dançar quase sempre, levar ao pé da letra a lição gingada do mestre Jorge Ben, que ensinou que, quando a gente para de brincar e mexer o coração, ao invés de bater, padece.

Às vezes, enquanto corre o jogo, penso que é exatamente assim

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