paralelos [ou uma crônica depois daquele poema]

Sou geralmente mais da noite que da manhã, mais do ar que do peso, mais do silêncio que da pressa, mais de prosa que de poema. Sou sempre que possível de perdão mais que de mágoa, mais de abraço que de distância, mais de perguntas que de qualquer coisa. Sou quase todo o dia mais de tempo que de espaço, mais de movimento que de pedra, mais de canção que de qualquer coisa. Sou de chorar diante da beleza, e do mesmo modo pelas injustiças que cometem ou cometo, eu mesma.

Gosto de letras mais que de números e de matemática menos que de Charles Chaplin. Gosto de nós dois, mais que muito. Gosto de salada e Coca Cola, para a surpresa dos outros, tanto quanto de reaprender a lição dos peixes em seu vaivém constante, sem medo da morte ou coração partido, sem tarefas por entregar ou vontade de desistir, sem raiva, pena de si mesmo, pessimismo, pensamentos malvados, dor no cotovelo, culpa ou rancor, apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade e depois voltar.

Sou de Aquário, ascendente em Câncer.

Tenho geralmente mais dúvidas que disposição para ginástica, mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais mania de rir à toa que preconceito, mais medo dos vivos que da maioria dos mortos. Tenho menos vaidade do que curiosidade em entender o que aproxima e o que separa a humanidade em um planeta de sete bilhões de habitantes, o que une e o que separa brancos, pretos, amarelos ou vermelhos, os felizes dos tristes, os sábios dos egoístas, os humildes dos impacientes, os imprescindíveis dos outros.

[A ausência eu sei que afasta, buraco, silêncio, vazio. Os encontros, do contrário, aproximam, momento inesperado, figurino impróprio, endereço improvável e a paz de quando você não tem expectativas e, de repente, acontece. A mentira afasta, e nada mais precisa ser dito. As vontades aproximam, desejo, tesão, escolha e a versão lindíssima em que Gal Costa, violão no colo e flor na cabeça, canta que o corpo está acostumado.]

Sou mais de música do que de briga.

Gosto daquele poema que há a respeito dos mundos inexistentes, em especial a parte da pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. Tenho esperanças, até quando não devia, e na mesma proporção acredito na perfeição da intimidade com o silêncio. Sou daquele poema mais que de dissimulações, a comunhão com os sons, a angústia do tempo, a lenta decomposição poética em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius de Moraes.

Tenho tido felizmente mais alegrias súbitas do que males ao ouvir passos na noite que se perdem sem história, mas menos distração, disponibilidade e vagueza do que gostaria. Gosto daquele poema mais do que de determinadas faltas, o poema que há a respeito do constante esforço para caminhar no labirinto, o eterno levantar depois de cada queda, a busca do equilíbrio, a terrível coragem diante do grande medo, o medo infantil de ter pequenas coragens, por fim.

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