de bananas

Então o jogador, num ato original, simbólico e bem-humorado contra o racismo, comeu a banana, 80 calorias em 100 gramas de potássio, água, fibras e vitaminas A e C jogadas da arquibancada por um torcedor que, sem nenhuma sutileza, dizia:

– Macaco.

O resto da história vocês conhecem, com maior ou menor número de detalhes – uma campanha gestada no departamento de criação de uma grande agência de publicidade, a marca #somostodosmacacos aqui e acolá, o craque do Brasil, o bom moço da televisão, meu vizinho e talvez alguns de vocês em retratos espalhados pela internet com a intenção de ecoar o protesto silencioso do jogador que comeu a banana jogada da arquibancada por um torcedor que, sem nenhuma sutileza, dizia:

– Macaco.

Macacos, de acordo com as leis da biologia, são primatas que habitam florestas, savanas e pântanos de regiões tropicais, vivem em bandos e se organizam em torno do macho mais forte do grupo, responsável por guiá-los na busca por comida, manter a organização interna e coordenar sua defesa. A ordem dos homens também é a dos primatas, mas, ao contrário de chimpanzés, orangotangos, gorilas, babuínos, bugios e saguis, somos integrantes de uma espécie com telencéfalo altamente desenvolvido, capacidade de raciocínio, potencial para criar, imaginação aguçada e habilidade para sistemas avançados de comunicação.

Em razão das semelhanças biológicas entre nós e os macacos, Charles Darwin e os cientistas que vieram depois concluíram que temos um ancestral único. Darwin nunca escreveu que o homem “veio” do macaco, nem no começo nem no fim, nem antes de casar com a prima nem depois de criar um time inteiro de filhos, nunca. A ideia que o pesquisador defendeu é que temos um antepassado em comum que teria vivido há mais de seis milhões de anos em algum canto da África, mas não somos macacos, nem viemos deles; nem eu nem você nem o jogador que num ato original e bem-humorado comeu a banana jogada da arquibancada por um torcedor que sem nenhuma sutileza dizia macaco.

Chamar um homem de macaco significa apenas uma coisa: racismo. O que nos une neste um planeta de quase sete bilhões de habitantes, 70% de oceanos na superfície, 32% de ferro, 30% de oxigênio, 15% de silício e 13% de magnésio, homens, mulheres, velhos, crianças, brancos, pretos, amarelos, vermelhos, felizes, tristes, boêmios, sábios, saudáveis, egoístas, humildes, impacientes, imprescindíveis ou inúteis não é a cor da pele, a forma do nariz, a textura do cabelo. O que nos une é a humanidade, ou pelo menos devia ser.

A intolerância, no extremo oposto da matemática da polidez, da geografia do equilíbrio, da beleza da contradição e da delicadeza do diálogo, é o inimigo que nega toda a riqueza da conversa, exatamente como defendem os filósofos do velho livro de capa preta. Somos animais e nossas raízes biológicas, eles ensinam, nos levam a não gostar dos que são diferentes de nós, porque têm cor diferente de pele, porque falam uma língua que não entendemos, porque comem rã e alho ou têm tatuagens, porque acreditam em outro Deus ou em outra coisa.

À parte as boas intenções do protesto do craque do Brasil, do bom moço da televisão, meu vizinho e talvez alguns de vocês em retratos espalhados pela internet, vivemos em um mundo onde muito menos gente do que devia trata o outro como livre, como irmão ou como igual. À parte o modo como as luzes se voltaram para o horror que é o preconceito, temos ainda um longo caminho pela frente, e não tem brado original e bem-humorado, potássio, fibras, craque, moço, vizinho ou hashtag em rede social que suavize a feiura deste fato.