autorretrato à moda de Gabo

Meu nome, senhoras e senhoras, é Ana Laura Nahas. Houve um tempo em que as cinco letras do meio incomodavam; hoje gosto. A escolha foi das minhas irmãs, inspiradas na canção de João de Barro que minha mãe cantava para embalar o sono delas e que ainda quero tatuar perto do cóccix. Nasci em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, há trinta e sete anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Aquário e meu marido inventa palavras. Estudei jornalismo, vivo em paz entre papéis e cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca disco chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto, e graças às conjunções permitidas por estas atividades tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Minha verdadeira vocação é ser cozinheira, mas fico tão encabulada quando dizem que o quibe, a cafta, a pasta de grão de bico e a berinjela que fazemos na cozinha de casa são melhores que os dos restaurantes que achei melhor me refugiar na solidão da literatura. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de duas horas de trabalho. Exatamente como Gabo, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão dedicada que tenho este blog, uma coluna quinzenal e consegui publicar dois livros em quatros anos. O terceiro, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre as tarefas do dia e as minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Falo sobre literatura talvez mais do que devia, porque palavras, frases e parágrafos me movem de modo mais agradável do que o excesso de exibicionismo destes tempos de tanto blá-blá-blá e tão pouca essência. Ao contrário de Gabo, não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem os livros. Por outro lado, acredito, como ele, que as coisas seriam diferentes sem a polícia. Apesar disto, terrorismo – sinto muito – não é comigo.

Escrevi este autorretrato à moda de Gabo três dias depois de sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. A inspiração é este texto aqui, dele, de 1966. Quando soube da sua morte, foi como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um vizinho gentil, um professor remoto. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, a maneira como ele acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação. Com seus modos de colombiano errante e nostálgico, Gabriel García Márquez criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que costumo escrever têm um pouco dele: Aureliano, Arcádio, Amaranta, Rebeca e – meu ligeiro favorito, que também se foi recentemente – o Telescópio Melquíades.

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