até mais, gabo [e obrigada pelos peixes]

Querido Gabo,

As notícias a respeito da sua morte estão por toda parte. Há frases suas, listas de livros, fotografias comportadas e retratos nem tanto, relatos das agruras, das escolhas, das imposições e das guerras particulares que você travou pela arte, pela América Latina e – verdade seja dita – também por sua própria vaidade. Há descrições da trajetória que você percorreu desde os primeiros tempos em Aracataca, das invenções que publicou nos jornais como se fossem reais, dos prêmios e do prestígio obtidos dentro e fora do continente que você afirmava ser um fantástico reino de homens alucinados e mulheres históricas.

As memórias surgem aqui e ali, Gabo, nas notícias a respeito da sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos de idade: o Nobel de 82, os 50 milhões de exemplares de “Cem Anos de Solidão” em 25 línguas, seus modos de colombiano errante e nostálgico, a entrevista sobre de que forma a fama o condenou a ser sozinho, exatamente como a estirpe condenada dos Buendía; o câncer linfático, a fundação para estudos de jornalismo em Cartagena das Índias, a escola de cinema em Cuba, a amizade com Fidel, o soco de Vargas Llosa que quase o nocauteou, ao que tudo indica movido por ciúmes; Mercedes, é claro.

Do mesmo modo, dois ou três registros sobre a sua partida resgatam a temporada em que as lembranças simplesmente desapareceram da sua cabeça, Gabo – um amigo seu declarou que você não falava mais ao telefone porque não reconhecia seus interlocutores pela voz e, para tentar reencontrar o rumo da prosa, fazia perguntas iguais repetidas vezes e que, quando não sabia com quem estava conversando, despejava um “o que tem feito?” ou um “quando volta de Paris?”.

Desculpa se repito coisas que você sabe de cor, Gabo, se converso com você morto como se estivesse vivinho da Silva, se ajo com menos reverência do que devia, se desenterro o menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que você um dia foi, a leiteira descrente que disse para sua mãe que você não sobreviveria à infância ou a relação difícil que você teve com seu pai – custo a acreditar que, se não fosse a intervenção de sua mãe, ele abriria sua cabeça num ritual caseiro de trepanação; custo a acreditar que ele mandou um recado para que “aquele espermatozoide” [você] fosse visitar a família.

Desculpa se conto da noite em que você precisou comer lixo para sobreviver em Paris ou do dia em que empenhou o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador para juntar os 30 pesos que faltavam para o envio das 490 páginas originais de “Cem Anos de Solidão” pelo Correio para a avaliação da editora. Desculpa se falo, invasiva, como se conhecesse, da velha casa repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra.

Desculpa, Gabo, mas é que, quando soube da sua morte, era como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra [e é quase sempre a palavra que vence, você tem toda razão]. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, o autorretrato em que você confessou achar que o mundo seria o mesmo sem a literatura, mas bem diferente sem a polícia, a maneira como você acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação.

Você criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que escrevo têm um pouco de você, Gabo. Melquíades, que também morreu esses dias, era o meu favorito, um pouco mais que Aureliano, que Arcádio, que Amaranta, que Rebeca, um pouco mais que o cascudo grudado no fundo e que o outro Kinguio, maior e mais clarinho.

Olhar pra ele, Gabo, sossegava tudo. Sua calma acalmava as noites abafadas, sua cortesia abrandava o peso das horas complicadas e seu modo de conviver em harmonia com os outros peixes ditava como podia ser também a vida das espécies do lado de cá: temperança, boas intenções, equilíbrio, tolerância e justeza – e de repente ele estava lá, parado onde antes era um balé, vazio no espaço até então ocupado pelo hábito de nadar com leveza, a barriga dourada para cima, as escamas pretas opacas como o quê, os olhos protuberantes vidrados em lugar nenhum.

Melquíades era pura calma, Gabo, mesmo diante das tempestades do lado de fora, mesmo nas horas em que chovia dentro de mim, sereno e certeiro como a resposta que Florentino Ariza tinha preparado havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites para a pergunta de Fermina Daza, diante do céu sem nuvens de dezembro e da suspeita de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

– E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho?

– Toda a vida.

autorretrato à moda de Gabo

Meu nome, senhoras e senhoras, é Ana Laura Nahas. Houve um tempo em que as cinco letras do meio incomodavam; hoje gosto. A escolha foi das minhas irmãs, inspiradas na canção de João de Barro que minha mãe cantava para embalar o sono delas e que ainda quero tatuar perto do cóccix. Nasci em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, há trinta e sete anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Aquário e meu marido inventa palavras. Estudei jornalismo, vivo em paz entre papéis e cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca disco chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto, e graças às conjunções permitidas por estas atividades tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Minha verdadeira vocação é ser cozinheira, mas fico tão encabulada quando dizem que o quibe, a cafta, a pasta de grão de bico e a berinjela que fazemos na cozinha de casa são melhores que os dos restaurantes que achei melhor me refugiar na solidão da literatura. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de duas horas de trabalho. Exatamente como Gabo, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão dedicada que tenho este blog, uma coluna quinzenal e consegui publicar dois livros em quatros anos. O terceiro, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre as tarefas do dia e as minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Falo sobre literatura talvez mais do que devia, porque palavras, frases e parágrafos me movem de modo mais agradável do que o excesso de exibicionismo destes tempos de tanto blá-blá-blá e tão pouca essência. Ao contrário de Gabo, não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem os livros. Por outro lado, acredito, como ele, que as coisas seriam diferentes sem a polícia. Apesar disto, terrorismo – sinto muito – não é comigo.

Escrevi este autorretrato à moda de Gabo três dias depois de sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. A inspiração é este texto aqui, dele, de 1966. Quando soube da sua morte, foi como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um vizinho gentil, um professor remoto. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, a maneira como ele acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação. Com seus modos de colombiano errante e nostálgico, Gabriel García Márquez criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que costumo escrever têm um pouco dele: Aureliano, Arcádio, Amaranta, Rebeca e – meu ligeiro favorito, que também se foi recentemente – o Telescópio Melquíades.