prioridades

Talvez seja mesmo como o Veríssimo escreveu: em determinado momento, a gente define as prioridades que vai carregar pro resto da vida e, com raras exceções, norteia a partir delas as decisões, as definições e as escolhas que faz, das maiores às menores, das fáceis às de tirar o sono. Com ele, foi aos quatro ou cinco anos de idade, em frente à casa dos avós. Um garoto passava com um balaio vendendo pasteis de carne e propôs trocar um pastel por um carrinho em miniatura importado. O neto de seu Sebastião e dona Abegahy aceitou na hora e até hoje, mais de sete décadas depois, acredita que fez um ótimo negócio.

Com John Wood, foi um pouco mais tarde. Aos 40 e poucos anos, o poderoso ex-assessor de Bill Gates, que entrevistei numa tarde quente de 2007, largou o trabalho na igualmente poderosa Microsoft durante uma viagem ao Himalaia, para ensinar crianças do Nepal a ler e escrever. Wood vivia de acordo com as expectativas da sociedade a respeito de êxitos e desejos, mas profundamente infeliz, até o dia em que mobilizou amigos ricos e fundou a Room to Read, uma organização não-governamental com sede em São Francisco que constrói escolas e bibliotecas, dá aulas de informática e distribui livros para crianças no Nepal, no Vietnã, no Camboja, na Índia, no Sri Lanka, no Laos e na África do Sul.

Com Jamal Malik, as coisas andaram um pouco diferentes. As escolhas do personagem principal de “Quem Quer Ser um Milionário” se moveram por amor, como talvez sejam a maioria absoluta das escolhas. Em seu mundo cinza, de crueldade e extermínio, de miséria e tortura, de frustrações e desesperança, ele aprendeu das coisas que a vida ensinou quase sempre da maneira mais cruel, como a gente aprende que matam por nada quando vê um crime gratuito, percebe o quanto as opções alheias afetam a fé que intimamente temos [ou não] nos outros e em nós, aceita que às vezes é preciso ter apenas o essencial para que todo o resto faça algum sentido.

Às vezes o momento de definição das prioridades do resto da vida não tem data e endereço tão evidentes. Daí, o que determina as urgências, as emergências e as necessidades são agentes mais sutis, um sonho recorrente, um afeto insistente, um encontro envolvente, um medo ou um desejo. Às vezes é o contrário, e são as ausências que definem o que vem primeiro e o que vem depois, se o dinheiro ou o amor, se viajar ou pagar o financiamento, se o incerto ou a estabilidade, se esperar ou partir, o silêncio ou o movimento, se não correr riscos ou tentar, em nome do melhor riso de todos, olha, encosta, afaga, aperta, ri, sonha, olha de novo, aperta mais, ri outra vez.

Às vezes simplesmente acontece. Matar a fome, por exemplo, entra no topo da lista de prioridades da maioria de nós, seja lá qual fome for, de sossego ou confiança, de música ou silêncio, diversão, arte, bebida, balé, prazer para aliviar a dor, dinheiro e felicidade ou saída para qualquer parte, exatamente como na canção.

[Você tem fome de quê?].

Às vezes a fome é de comida mesmo, sem metáfora nem poesia, como o menino do semáforo naquele domingo em que voltávamos da praia, música até as três da tarde, chocolate, o sol e o mar por perto, e um pedido para o qual havia uma única resposta possível, e ela era um sim. Às vezes a fome é de respostas, ou então é a segurança que falta, firmeza, equilíbrio, a certeza e a solidez que a gente precisa nos momentos em que define as prioridades que vai carregar pro resto da vida e, com raras exceções, usar pra nortear decisões, definições e escolhas que vai fazer dali em diante.

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4 comentários sobre “prioridades

  1. “Entretanto, eu não quisera ser Conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser Conde. Não amo os Condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.”

    Dele, vc sabe quem…

    Minhas prioridades são mais ou menos assim.

    Bj, Ana

  2. Humanidade, entrega, palavra que acalma e inquieta a alma… é nisso que a gente esbarra quando entra em contato com seus textos. Parabéns! Gostaria de ver um texto seu sobre “pedras”, ao melhor estilo Cora Coralina.

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