o telescópio e a delicadeza

No final do verão, morreu o Telescópio. Vínhamos de uma semana difícil, um pouco mais cansativa que as outras, conversas surpreendentes, emoções intensas, decisões importantes, obrigações demais para tempo de menos, e de repente ele estava lá, parado onde antes era um balé o dia todo, vazio no espaço até então ocupado pelo hábito de nadar com leveza e simplicidade, a barriga dourada para cima, as escamas pretas opacas como o quê, os olhos protuberantes vidrados em lugar nenhum.

Melquíades – com exceção do Cascudo grudado no fundo e do outro Kinguio, maior e mais clarinho, os nomes dos peixes saíram da saga das estirpes condenadas a Cem Anos de Solidão – era uma tranquilidade só. Talvez por esta razão, tenha sido o meu ligeiro favorito desde que compramos o aquário, um pouco mais que Aureliano, que Arcádio, que Amaranta, que Rebeca, um pouco mais que os outros dois.

Olhar pra ele, pra lá e pra cá, sossegava tudo. Sua calma acalmava as noites abafadas, sua cortesia abrandava o peso das horas complicadas e seu modo de conviver em harmonia com os outros peixes ditava como podia ser também a vida das espécies do lado de cá: temperança, boas intenções, equilíbrio, tolerância e justeza.

[A intolerância é o inimigo que nega toda a riqueza da conversa].

Tenho mania de ver lição em peixe. Gosto de passar um tempo diante deles como de determinadas rotinas, listar as tarefas do dia para que não escapem ao longo do expediente, escrever um texto novo a cada terça-feira, escolher o disco conveniente antes de cada faxina, almoçar duas vezes no domingo, reencontrar os queridos e o ritual dos melhores diálogos, calma, ouvido, palavra, canção, às vezes vinho, a cabeça aberta, o coração aberto igual e quem sabe duas Margaritas – tudo isso me faria feliz.

A verdade é que a sutileza da existência de Melquíades, seu comer pouco, seu nadar em círculos e sua vagareza que parecia estratégia, não preguiça, me lembravam que, com pouquíssimas exceções, as figuras mais eficientes que conheço esbanjam suavidade no trato. Concordo plenamente com o escritor de nariz adunco e nome árabe em sua defesa de que gestos e palavras gentis são, acima de tudo, demonstrações de força; e de que confiança, respeito e admiração são sentimentos incrivelmente mais poderosos do que medo, obediência e subserviência.

Acredito que precisamos não apenas de lógica, de logística, inteligência, organização e eficiência, mas também de sensibilidade e afeto para compreender as transformações do mundo. Devemos não apenas trabalhar duro, mas igualmente investir em encontros com aqueles que pensam menos na posse e mais no sentido, menos no acúmulo e mais na permanência, menos no exagero e mais no equilíbrio, menos no poder e mais na potência.

A verdade é que um pouco de delicadeza de certo não faria mal, em Vitória ou em Brasília, em Genebra ou na China, nas redes sociais ou nas esquinas de Jardim da Penha, exatamente como no aquário em que Melquíades viveu e morreu, no final do verão, quando vínhamos de uma semana difícil, e de repente ele estava lá, parado onde antes era um balé o dia todo, vazio no espaço até então ocupado pelo hábito de nadar com leveza e simplicidade.

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