um olhar sobre ela

elaSaí do cinema com uma vontade danada de escrever sobre Ela, mas não sei se era exatamente sobre o filme do sujeito solitário que se apaixona por um sistema de computador que eu queria escrever, ator, diretor, trilha sonora, roteiro, indicações ao Oscar, aquela coisa.

Queria talvez dizer não sobre Spike Jonze, mas sobre como e quando começam as histórias de amor, em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, ouvindo as canções até o fim da pilha. Queria talvez dizer sobre o riso fácil dos primeiros dias, o sono deixado de lado nas noites em que nada mais importa a não ser os dois, as horas de apresentação, introdução, reconhecimento, prefácio, o início todo.

[Porque bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo].

Queria talvez dizer não sobre Joaquim Phoenix, mas sobre o que muda com o tempo, a paz que a gente constrói conforme os dias passam, a hora em que percebe que não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do cabelo desgrenhado, das manias engraçadas, do modo de organizar as estantes – ou justo o oposto, da bagunça espalhada pela casa. Queria talvez dizer sobre os planos para o futuro, o corpo todo tomado de alegria, coração, pulmão e estômago inteiros cheios de tanta felicidade, a viagem que a gente repete, ano sim outro também, ou então as rotas novas, com zero de agendas obrigatórias.

Queria talvez dizer não da briga pelo troféu de Filme, Roteiro ou Trilha Sonora, mas dos afetos que cedo ou tarde esbarram no ciúme, nas ausências, nas dificuldades de comunicação ou nas diferenças que de repente se agigantam. Queria dizer, talvez, sobre o modo como a gente conserta as coisas ou as perde, definitivamente; sobre como somos ou não somos capazes de evoluir com as mudanças, crescer com as perdas, aprender com as divergências, superar e seguir.

Ela, o lindo filme sobre o homem silencioso que anda de cabeça baixa, costas ligeiramente encurvadas, calça acima do umbigo e olhos fixos em um pequeno computador de bolso, tem um pouco disso tudo que eu talvez quisesse dizer quando saí do cinema. Tem o riso fácil dos primeiros dias, o sono deixado de lado nas noites em que nada mais importa, apresentação, introdução, reconhecimento, prefácio e os primórdios da saga do Coronel Aureliano Buendía. Tem a paz conforme os dias passam, a hora em que não se consegue mais ficar longe, o corpo todo tomado de alegria, coração, pulmão e estômago cheios de tanta felicidade. Ela tem ciúme, ausência, dificuldade de comunicação, diferenças que de repente se agigantam, evoluir com as mudanças, crescer com as perdas, aprender com as divergências, superar e seguir, ou não.

É uma história de amor que seria como a minha, a sua, a de qualquer um, não fosse o filme protagonizado por um homem e uma máquina, um redator profissional de mensagens afetuosas ou votos de felicidade apaixonado por um programa de computador capaz de fazer companhia, organizar arquivos, ajudar a passar de fase no videogame, ouvir de verdade e responder com a voz sexy de Scarlett Johansson.

O que o filme nos mostra é a aventura de um amor alegre e triste, como de certa forma são os verdadeiros amores, um caminho que alterna diálogos férteis e incomunicabilidades, aproximações e distanciamentos, afeições e um pouco de dor de estômago. As cenas parecem dizer que compartilhar é tão preciso quanto viver e navegar, mas às vezes dói, exige, satura, sufoca, e as máquinas com inteligência artificial, porque criadas à nossa imagem e semelhança, estão prontas a repetir os modos e manias que costumamos cultivar.

Porque criadas à nossa imagem e semelhança, as máquinas do filme, como possivelmente também as do mundo, são programadas para entender descobertas, fascínio, entrega, mal-estar, apego, dificuldades de comunicação, acúmulo, confusão, vazio, nostalgia, melancolia, solidão, esperança, desencontro, dependência. Sabem, porque criadas à nossa imagem e semelhança, da necessidade de estarmos conectados, mesmo que de modo cada vez mais egoísta e dependente, mesmo que de modo cada vez mais solitário e confuso.

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