as estações [ou pequena reflexão nos dias que antecederam meu aniversário]

Funciona mais ou menos deste modo, de acordo com a teoria da psicóloga britânica Mary Esther Harding, quarta entre os seis filhos de um cirurgião dentista do Condado de Shropshire, num século anterior a este, de tanta opinião e tão pouca tolerância: vivemos uma existência dividida em quatro, que repete a evolução das estações do ano, primavera, verão, outono, inverno, primeiro semeadura, depois movimento, em seguida acertos e por fim descanso.

Segundo Mary Esther Harding, até os 21 anos, estaríamos na primavera, temporada de semeaduras e construções, nascimentos e desabrochares. Dos 21 aos 42 experimentaríamos dias e noites de verão, eles mais longos que elas, movimento e igualmente construções, só que outras. Dos 42 aos 63, seríamos como o outono das grandes colheitas, celebrá-las e acertar os ponteiros deixados pela temporada anterior. Daí em diante, haveríamos de aturar o inverno, ar frio, céu cinza, os bichos hibernam, a gente mete o corpo por baixo das cobertas, a noite anoitece mais cedo e às vezes cai neve.

Se entendi direito, viveríamos como flores nos primeiros tempos, infância, adolescência e chegada à maioridade feito girassóis, rosas, margaridas, tulipas, as orquídeas que serviam para dar força e virilidade aos astecas e curavam tosses e doenças pulmonares dos chineses, as violetas que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos e as rosas que descortinam o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois a outra.

Aos 20 e poucos e pela década seguinte, moraríamos em um mundo quente como os dias de fevereiro, aquela vontade de movimento e de transformação, o cardápio à base de receitas inventadas, folhas frescas e Coca-Cola, os pedais pedalando no sentido do vento, os novos projetos grifados na agenda do trabalho, o horário com uma hora de diferença, figurino leve, caipirinha de tangerina, a capacidade de relativizar mais aguçada que antes, a profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer e aquela ideia de que entre dezembro e março a vida pesa menos.

[Ufa].

Aos 42 e pelos próximos 21 aniversários, colheríamos o resultado do plantio de antes, luz solar incidindo sobre o Equador na perpendicular, ambos os hemisférios igualmente iluminados, dias e noites com duração semelhante, temperaturas mais amenas, menor umidade do ar, redução de chuvas, temporada de mudar, colher e ver as folhas que caem, mais ou menos amarelas, na calçada, nas ruas e na varanda.

Como os animais, armazenaríamos o que fosse preciso durante o outono, de comida à aposentadoria, de paciência à sabedoria, de informações aos afetos mais serenos, da casa arrumada com mesa, estantes, armários e plantas aos descendentes e os descendentes deles, dos sonhos tornados reais às lembranças. E então, na teoria da quarta entre os seis filhos de um cirurgião dentista do condado de Shropshire, abriríamos as portas para o rigoroso inverno dos finais, até que não houvesse mais nada.

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