onze dias outra vez

Vendo agora há pouco a história de Ed e Floreen Hale, 83 e 82 anos de idade e 60 de casados, que morreram com apenas 36 horas de diferença um do outro, ele internado com algo grave na perna, falência nos rins e diabetes, ela com problemas no coração, lembrei desta antiga crônica, que escrevi quando Dorival Caymmi e sua mulher morreram, também num intervalo bem curto de tempo. O texto está no meu primeiro livro, Todo Sentimento.

ONZE DIAS
Vitória, 29 de agosto de 2008

Ela morreu 11 dias depois dele. Ele dizia que sentia a dor que ela sentia, até no parto. Ela estava doente antes. Ele ficou doente de tristeza, de ver a doença dela, de ficar distante do hospital em que estava a mulher que teve do lado durante 68 anos. Os médicos disseram que ela teve encefalopatia e insuficiência respiratória aguda e ele, insuficiência renal e parada múltipla dos órgãos. Mas eu acredito que Dorival Caymmi e Adelaide Tostes Caymmi, na verdade, morreram de amor.

Acho bonito morrer de amor.

Porque às vezes você gosta tanto que até respira o ar do outro, até pensa o pensamento do outro, até gosta do gosto e repete as manias, sorri no sorriso do outro e por uma noite esquece as próprias dores, bebe as alegrias, abraça as tristezas, ignora os defeitos e os escorregões e as palavras que não precisavam ser ditas e as perguntas que não precisavam ser feitas, e escreve pro outro ou então canta, cozinha, aperta, olha um olhar que resume todo o seu gostar, ar, pensamento, mania, sorriso, dor; tudo.

Às vezes você gosta tanto que prefere não responder, ou então lê o signo do outro no horóscopo mesmo quando não acredita em signo, vê o rosto redondo do outro mesmo quando fecha os olhos pra tentar dormir, sonha acordado, fala sozinho, repete em segredo as melhores lembranças, os risos, os afetos, o abraço apertado, o filme da segunda, o macarrão do domingo; gosta tanto que releva as coisas que o outro disse, quis ou fez, ou não disse, não quis, não fez. Às vezes você gosta tanto que até prefere morrer.

Imagina: um dia você conhece o amor da sua vida e tem certeza de que vai durar para sempre. Vocês começam a fazer tudo juntos e até ouvir trilha sonora de novela vira um programa divertido. Você faz música pro outro, e vai à praia e pro boteco e pras festas da família e pros shows de samba e conversa e ri à toa, como se a vida fosse boa. Você tira fotos e senta na varanda e sabe que às vezes precisa respeitar o silêncio do outro e reúne os amigos em comum e briga e faz as pazes e toma vinho e dorme abraçado e até visita o Pão de Açúcar mais uma vez só pra agradar o outro.

O tempo passa e vocês têm casa e carro e filho e futebol aos domingos e estante pra colocar os livros do Borges e sofá novo e dívida no banco e ruga e bodas de prata e viagem pro Nordeste e reumatismo e neto e aposentadoria e catarata e bodas de ouro e bisneto e colônia de férias e rádio de pilha e dor nas juntas; e uma vida inteira junto de repente termina num troço de nome difícil e significado desconhecido (não tenho a menor ideia): encefalopatia hepática. Você perde a fome, perde o chão, perde a graça e, pouco tempo depois, morre de um jeito bonito. Morre de amor.

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as estações [ou pequena reflexão nos dias que antecederam meu aniversário]

Funciona mais ou menos deste modo, de acordo com a teoria da psicóloga britânica Mary Esther Harding, quarta entre os seis filhos de um cirurgião dentista do Condado de Shropshire, num século anterior a este, de tanta opinião e tão pouca tolerância: vivemos uma existência dividida em quatro, que repete a evolução das estações do ano, primavera, verão, outono, inverno, primeiro semeadura, depois movimento, em seguida acertos e por fim descanso.

Segundo Mary Esther Harding, até os 21 anos, estaríamos na primavera, temporada de semeaduras e construções, nascimentos e desabrochares. Dos 21 aos 42 experimentaríamos dias e noites de verão, eles mais longos que elas, movimento e igualmente construções, só que outras. Dos 42 aos 63, seríamos como o outono das grandes colheitas, celebrá-las e acertar os ponteiros deixados pela temporada anterior. Daí em diante, haveríamos de aturar o inverno, ar frio, céu cinza, os bichos hibernam, a gente mete o corpo por baixo das cobertas, a noite anoitece mais cedo e às vezes cai neve.

Se entendi direito, viveríamos como flores nos primeiros tempos, infância, adolescência e chegada à maioridade feito girassóis, rosas, margaridas, tulipas, as orquídeas que serviam para dar força e virilidade aos astecas e curavam tosses e doenças pulmonares dos chineses, as violetas que os homeopatas usam desde 1829 para combater sinusites e reumatismos e as rosas que descortinam o devagar da vida, a sutileza do toque, a importância do cheiro, o machucado do espinho e o cuidado, uma pétala depois a outra.

Aos 20 e poucos e pela década seguinte, moraríamos em um mundo quente como os dias de fevereiro, aquela vontade de movimento e de transformação, o cardápio à base de receitas inventadas, folhas frescas e Coca-Cola, os pedais pedalando no sentido do vento, os novos projetos grifados na agenda do trabalho, o horário com uma hora de diferença, figurino leve, caipirinha de tangerina, a capacidade de relativizar mais aguçada que antes, a profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer e aquela ideia de que entre dezembro e março a vida pesa menos.

[Ufa].

Aos 42 e pelos próximos 21 aniversários, colheríamos o resultado do plantio de antes, luz solar incidindo sobre o Equador na perpendicular, ambos os hemisférios igualmente iluminados, dias e noites com duração semelhante, temperaturas mais amenas, menor umidade do ar, redução de chuvas, temporada de mudar, colher e ver as folhas que caem, mais ou menos amarelas, na calçada, nas ruas e na varanda.

Como os animais, armazenaríamos o que fosse preciso durante o outono, de comida à aposentadoria, de paciência à sabedoria, de informações aos afetos mais serenos, da casa arrumada com mesa, estantes, armários e plantas aos descendentes e os descendentes deles, dos sonhos tornados reais às lembranças. E então, na teoria da quarta entre os seis filhos de um cirurgião dentista do condado de Shropshire, abriríamos as portas para o rigoroso inverno dos finais, até que não houvesse mais nada.

pelo tombamento da crônica número 2

Eu acho que sorvete de cereja com calda de Nutella devia ser tombado como patrimônio imaterial da humanidade, sorvete de cereja com calda de Nutella e Maria Bethania recitando os poemas da sua vida, gim com água tônica, o significado da primeira geladeira e certas canções. O sentimento de alguns poetas e o sorriso dos amores de fato também podiam ganhar o selo de coisa tombada, protegidos e resguardados de qualquer tipo de abalo para todo o sempre, e da mesma maneira os amigos verdadeiros e os primórdios do samba no bar da esquina.

As histórias bonitas e a delicadeza do mundo, quando há [porque nem sempre, infelizmente], deviam ter este selo, exatamente como o escritor sugeriu, tempos atrás, que tivessem as crônicas e os temas caros aos cronistas. Segundo ele, era para o mais imaterial dos estilos literários ser considerado um bem imaterial intocável como a panela de barro feita logo ali – escrevo da Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo –, o queijo de Minas, o samba de roda do Recôncavo baiano, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o frevo de Pernambuco e quem sabe o tapioqueiro da Rua Paissandu.

A crônica seria, então, inscrita no livro de tombos e celebrada como as construções mais valiosas, livre de estragos e avarias, bem ao lado do primeiro gole da cachaça para o santo, do grito do verdureiro para a freguesa bonita que não paga, mas também não leva, do pôr do sol da Praia do Arpoador, do torcedor que fica de costas na hora do pênalti, da rosca de polvilho e do apito da fábrica de tecidos.

Deste modo, o suave exercício sobre o tempo, as boas histórias e a delicadeza das coisas empreendido por mestres como o velho Braga, Drummond, Carmélia, às vezes Clarice e García Márquez quando as lembranças permitiam estariam isentos de estragos e avarias. Seriam, pois, guardados e valorizados para todo o sempre o passarinho que, ao contrário do conde, não tem fábricas, mas sabe cantar e voar; a moça daquela noite em que chovia não a cântaros, mas a bules de chá; a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente – não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa nem chateia a gente.

Estariam igualmente isentos de estragos e avarias as mulheres que passam, os estudantes que passam, as comerciárias que passam, os malandros que passam e todos os outros que passam rumo à Praça Costa Pereira. Aquela deliciosa defesa por pratos sem cheiro verde também seria preservada e valorizada para todo o sempre, como também a aventura do garoto que não sabia o que era dormir – e o avô tentava explicar que, quando chegava a noite, as pessoas tiravam a roupa, vestiam uma coisa chamada pijama, olhavam um pouco de televisão e às vezes sonhavam.

Com o tombamento da crônica, Dindi estaria livre de estragos e avarias, preservada e valorizada para todo sempre, amém.