ah, o verão…

Talvez seja a vontade de movimento e de transformação trazida pelo sol, as tardes de sábado, as boas companhias, o cardápio à base de receitas inventadas, folhas frescas e Coca-Cola, os pedais pedalando no sentido do vento, os novos projetos grifados na agenda do trabalho, as mudanças no armário, o horário com uma hora de diferença, figurino leve, caipirinha de tangerina, a capacidade de relativizar mais aguçada que antes, a profusão de vermelhos, amarelos, cinzas e verdes do entardecer, aquela cor.

Talvez sejam os parceiros, que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez seja o contexto, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora apenas porque sim, os planos pra maio, reencontrar o foco ou voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre. Talvez seja o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa velha revista:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Talvez sejam as celebrações ainda frescas do ano novo ou os desejos que nasceram com ele, buscar cada vez menos os analgésicos para dor de cabeça, precisar de cada vez menos coisas para ser feliz, cuidar um pouco melhor do corpo, escrever todo dia, trabalhar com o zelo de sempre, comer devagar, soltar as amarras, tornar os passeios de bicicleta mais e mais frequentes. Vai ver são as plantas descuidadas sambando com a brisa da varanda ou então a proposta de ampliar as descobertas na cozinha, um pedaço a mais de panetone de doce de leite, um pouco além de purê de maçã verde, um teco a mais de batatas coradas, uma fatia extra de pudim de queijo com calda de goiabada.

[Delícia].

Talvez seja a vontade de jogar os excessos fora, apego, pressa, cansaço, papéis, todos devidamente postos na lata de jogar os excessos fora, sem dó, sem volta. Talvez seja só querer ter acordado um pouco depois, sem tanto pra pensar nem tanto pra resolver. Talvez seja apenas o clima, dias mais longos, noites mais suaves, temperatura alta, o ar abafado que anuncia que em breve teremos chuva, mas logo depois outra vez o sol, ou então os shows de música na beira da praia, um amor novo para minha nova amiga, restabelecer diálogos que ficaram longe, uma vontade recorrente, ano depois de ano, de leveza, calma, simplicidade, aquela, sabe?, que numa destas ironias da vida a gente precisa de trabalho duro para encontrar.

Talvez não seja nada disso, nem vontade de movimento nem plantas sambando com a brisa, nem projeto novo grifado na agenda nem horário com uma hora de diferença, nem capacidade de relativizar nem profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer. Talvez não seja o contexto e menos ainda o texto, como também não sejam as celebrações ainda frescas do ano novo ou os desejos que nasceram com ele, a lata de pôr os excessos fora, uma proposta recorrente, nada. Talvez não seja nada disso, apenas a ideia de que, entre dezembro e as águas de março, a vida pesa menos.

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2 comentários sobre “ah, o verão…

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