um ritual para o ano novo

O exercício se repete, ano depois de ano. Tão logo janeiro se aproxima, reservo uma noite calma para a tarefa igualmente silenciosa de passar a limpo a agenda que fica e preencher o novo volume com aniversariantes, e-mail e telefones de emergência, em que médico devo voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar quando janeiro chegar, olhar pra trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, rever feitos, tomar nota do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a tarefa, estou pronta para seguir em frente.

É um ritual, tão simbólico quanto significativo, como talvez seja boa parte dos rituais, mesmo que Quintana diga que os primeiros dias do ano, como as segundas-feiras e o início de cada mês, sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam.

Devem estar por perto as canções certas, as janelas escancaradas, lápis de boa ponta, borracha e também os projetos, as metas e os sonhos. Devem igualmente estar a postos as orações ao grandioso e bom Deus para que, outra vez e sempre, torne as presenças constantes e as ausências amenas, perdoe os deslizes, desconte as faltas, alivie os excessos, mantenha a paz e instaure o equilíbrio, de uma vez por todas.

Uma página em seguida da outra, é hora de organizar os 12 meses seguintes, pensar nas coisas feitas, nas não feitas e nas desfeitas, rever 365 [às vezes 6] dias de anda, para, muda e desmuda, sente e dessente, promete e despromete, faz Pilates pra coluna torta, vai ao cardiologista pro coração cansado, pinta a parede pros olhos felizes, compra cortina, compartilha a vida inteira, sente saudade, anota, telefona, espera, escolhe, encolhe, chora, ri, bebe, levanta, canta.

Precisa de tempo e paciência, 30, 50, muitos minutos de retrospecto, atividade, reunião, panelas e um mundo inteiro descoberto ou revisto, muda de emprego, se decepciona com a ética frouxa do ser humano, uma entrevista que não dá pra esquecer, Quase um Segundo, cozinhar, rezar, confirmar uma escolha difícil e enfim saber como é bom entender o que realmente importa, aceitar o verde da grama da gente independentemente dos tons do jardim vizinho, estar inteiro em um projeto, um amor ou um propósito, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto.

Precisa de atenção e zelo, cinco, dez, algumas notas de planejamento, livros e um mundo inteiro desejado ou previsto, uma viagem, volta a estudar, uma referência que se vai, os 100 anos do velho Braga, retomar com zelo a coleção de discos, buscar o foco, às vezes perdê-lo, pedalar com afinco, viver as madrugadas do mesmo jeito bom, investir na manutenção do encanto diante do mundo, dos encontros, da arte e das descobertas.

Precisa de tempo e paciência, 20, 100, sabe-se lá quantos dias de lições preciosas, Zamioculcas, peixes e as 13 coisas que aprendi em 2013, acupuntura e a crença de que os distúrbios emocionais são causados por perturbações no sistema energético do corpo, desapego e a ideia de que reformar, economizar, otimizar e respirar fazem bem pro planeta, pro bolso, pro cérebro e pras relações à espera de cuidado.

Precisa de atenção e zelo, três, quatro noites em busca da próxima saída, rezar um pouco mais, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários, serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça.

[Amém].

É um ritual tão simbólico quanto significativo, mesmo que Quintana diga que os primeiros dias do ano, como as segundas-feiras e o início de cada mês, sejam apenas uma ilusão de que as coisas se renovam. “Que seria de nós se a folhinha marcasse hoje o dia 713.789 da Era Cristã?”.

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