nós, os tímidos

Meu marido trouxe do supermercado as batatas que faltavam pro jantar, uma embalagem extra de amaciante de roupas, a Coca Cola do final de semana e o tema desta crônica. A figurinha corada e sorridente da capa da revista, ele dizia, era a minha cara. Um pouco acima dos olhos, na testa do smile ligeiramente envergonhado, as letras brancas avisavam: “Eles já foram malvistos, mas agora a ciência revela que os tímidos são mais criativos, focados e bons líderes. Chegou a vez dos introvertidos darem lições aos extrovertidos. Silêncio, por favor”.

[Viva!]

Charlie Brown, seu amor discreto pela menina dos cabelos vermelhos, o cartão apaixonado que nunca saiu do bolso e o convite que ele quase recusou para viajar à França porque era novidade demais para o seu coraçãozinho foram os primeiros a aparecer quando abri a revista na página indicada. Em seguida vieram a canção dos Smiths sobre a timidez e um escritor norte-americano segundo o qual, depois de um longo período em que os expansivos eram os modelos a ser perse­guidos, as qualidades dos quietos vol­taram a ser valorizadas.

A História determina o seguinte: no passado, quando boa parte da população ainda vivia no campo, todo mundo conhecida todo mundo, mesmo os mais recolhidos. As cidades nasceram, a população cresceu e o mercado de trabalho apareceu, obrigando funcionários a cau­sar uma boa impressão em chefes e colegas com quem não mantinham laços anteriores. Porque falavam mais e vendiam de modo mais eficiente as próprias características, os extrovertidos tiveram melhor sorte.

O discurso da Química é outro. Diante de um cenário desconhecido, as amídalas, área do cérebro responsável por respostas mais instintivas, ligam o sinal de alerta, liberam adrenalina no sangue, aceleram os batimentos cardíacos e dilatam os vasos san­guíneos – inclusive os do rosto, o que explica a bochecha avermelhada da vergonha. Alguns segundos depois, quando a situação chega ao neocórtex, a parte do cérebro que forma decisões racionais avalia o caso e decide se precisa mesmo de tanto alarde.

Para a Psicologia, os tímidos são mais sensíveis a novidades, porque o neocórtex demora mais para acalmar o organismo quando precisa. O cérebro, nos dois casos, também relaxa de forma diferente. Nos introvertidos, o processo é comandado pela acetilco­lina, neurotransmissor responsável por memórias e planos; nos outros, quem manda é a dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e recompensa. O resultado, com algumas exceções: ler um livro sozinho não é diversão para os mais saidinhos e uma festa abarrotada de gente não traz alegria aos mais encabulados.

A boa notícia é que História, Química e Psicologia chegaram à conclusão que ser de um jeito ou de outro não passa de um modo diferente de fun­cionar – de preferência sem drama nem vencedores. De acordo com a revista, enquanto os muito falantes, por viverem fora da concha, superam situações desconhecidas e cultivam relações de maneira mais natural, os tímidos tendem a ter mais concentração diante de uma tarefa, a trabalhar com maior produtividade, a perceber antes dos outros quando algo não vai bem e a escutar com mais zelo.

Convenhamos [e os extrovertidos que perdoem a tímida que aqui escreve]: saber disso é um alento nestes dias de tanto blá-blá-blá, tanto todo mundo tem uma opinião sobre tudo, tanto minhas noites são mais animadas que as suas e meus dias, mais felizes; cada um gritando pra preservar o seu pedaço e pronto acabou.

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