carta aberta a antonio prata

Vitória, 28 de novembro de 2013
Prezado Antonio Prata,

Chorei com o chorador inteiro enquanto lia a carta que você publicou no jornal para um amigo que andou distante pelos últimos anos. Chovia lá fora, e um pouco também dentro de mim, porque era uma daquelas noites em que chove dentro da gente, sabe?, uma chuva fria como o mês de julho, contínua como os piores fantasmas, íntima como o poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho – a gravata do urubu, as quatro teorias de árvore, a palavra parede, as rachaduras e os vermes, Seu França o violeiro, as cigarras, o escuro, as casas habitadas por morcegos, as ruínas, aquilo tudo.

Pensei na minha amiga que veio visitar a cidade e eu soube apenas pelo Facebook, nos desencontros que colecionamos porque falta tempo ou então vontade, naquelas ausências que a gente sente todos os dias, ocupando um espaço tão discreto e constante que é como se sempre tivessem estado ali. Pensei na falta de assunto que empurra a gente pra longe, nos desentendimentos que o rancor trata de deixar com forma e cor e consistência, nas ofensas subentendidas, no peso dos anos para o desgaste das emoções. Pensei nas noites em que pareceu que seríamos inseparáveis.

[Não fomos].

Pensei nas pessoas que um dia morrem na gente, mesmo que continuem vivinhas da Silva – um amigo que telefona só quando quer ajuda ou um amor que gastou todas as chances que tinha, a criança que um dia morou dentro da gente ou o sujeito que viajou pra longe sem dizer que ia, um dia qualquer, como hoje ou ontem ou a terça passada, um dia de agosto ou no meio do carnaval, um dia de vento sul ou calor dos infernos, de boca nervosa ou falta de apetite, de cabelo desgrenhado ou os cachos no lugar.

Pensei naquele livro [lindo] dos inseparáveis amigos de Minas, o sujeito com inteligência de poeta e uma profunda falta de jeito pra viver, o pobre-diabo lírico cheio de riqueza interior, o homem mais capaz de ser amado do que de amar. Pensei neles e nas madrugadas que eles varavam puxando uma angústia diante de temas habituais como el sentimiento trágico de la vida, le recherche du temps perdu, to be or not to be.

– Você já pensou que daqui a cem anos estaremos mortos?
– O que são cem anos, diante da eternidade?

Pra mim ainda não era uma questão o fato de daqui a cem anos estarmos mortos, como também eu não diria, tomando a liberdade de responder a pergunta de uma carta alheia, que o colesterol se transformaria em um inimigo ainda mais assustador que a rotina. A que ponto chegamos, não?

As minhas saudades estavam igualmente acumuladas, exatamente como você escreveu, parecendo adivinhar as minhas ausências, 10, 12, 15 anos de afetos, as madrugadas regadas a gim com tônica, as perguntas que não sabíamos responder a respeito do sentido da vida, as conversas em que dizíamos, ouvíamos, sorríamos, bebíamos e depois tudo outra vez. Como elas fazem falta, não?, e como, engolidos pelas tarefas diárias ou por causa da engrenagem da máquina do mundo, pelo comodismo ou pela suave tristeza da vida, deixamos que continuem a fazer.

Pensei nas vezes em que não liguei porque não sabia o que dizer, nas mudanças que não acompanhei, nas vitórias que não contei, nos dias e respectivas noites que se passaram sem que eu soubesse onde andavam os meus queridos, e fazendo o quê. Reli o que você contava sobre honrar compromissos, ganhar dinheiro, criar famílias, explicar uma filha, comprar uma esteira ergométrica e quem sabe abrir mão de coisas importantes no caminho. E chorei, Antonio Prata; chorei com o chorador inteiro enquanto lia sua carta para um amigo que andou distante pelos últimos anos.

nós, os tímidos

Meu marido trouxe do supermercado as batatas que faltavam pro jantar, uma embalagem extra de amaciante de roupas, a Coca Cola do final de semana e o tema desta crônica. A figurinha corada e sorridente da capa da revista, ele dizia, era a minha cara. Um pouco acima dos olhos, na testa do smile ligeiramente envergonhado, as letras brancas avisavam: “Eles já foram malvistos, mas agora a ciência revela que os tímidos são mais criativos, focados e bons líderes. Chegou a vez dos introvertidos darem lições aos extrovertidos. Silêncio, por favor”.

[Viva!]

Charlie Brown, seu amor discreto pela menina dos cabelos vermelhos, o cartão apaixonado que nunca saiu do bolso e o convite que ele quase recusou para viajar à França porque era novidade demais para o seu coraçãozinho foram os primeiros a aparecer quando abri a revista na página indicada. Em seguida vieram a canção dos Smiths sobre a timidez e um escritor norte-americano segundo o qual, depois de um longo período em que os expansivos eram os modelos a ser perse­guidos, as qualidades dos quietos vol­taram a ser valorizadas.

A História determina o seguinte: no passado, quando boa parte da população ainda vivia no campo, todo mundo conhecida todo mundo, mesmo os mais recolhidos. As cidades nasceram, a população cresceu e o mercado de trabalho apareceu, obrigando funcionários a cau­sar uma boa impressão em chefes e colegas com quem não mantinham laços anteriores. Porque falavam mais e vendiam de modo mais eficiente as próprias características, os extrovertidos tiveram melhor sorte.

O discurso da Química é outro. Diante de um cenário desconhecido, as amídalas, área do cérebro responsável por respostas mais instintivas, ligam o sinal de alerta, liberam adrenalina no sangue, aceleram os batimentos cardíacos e dilatam os vasos san­guíneos – inclusive os do rosto, o que explica a bochecha avermelhada da vergonha. Alguns segundos depois, quando a situação chega ao neocórtex, a parte do cérebro que forma decisões racionais avalia o caso e decide se precisa mesmo de tanto alarde.

Para a Psicologia, os tímidos são mais sensíveis a novidades, porque o neocórtex demora mais para acalmar o organismo quando precisa. O cérebro, nos dois casos, também relaxa de forma diferente. Nos introvertidos, o processo é comandado pela acetilco­lina, neurotransmissor responsável por memórias e planos; nos outros, quem manda é a dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e recompensa. O resultado, com algumas exceções: ler um livro sozinho não é diversão para os mais saidinhos e uma festa abarrotada de gente não traz alegria aos mais encabulados.

A boa notícia é que História, Química e Psicologia chegaram à conclusão que ser de um jeito ou de outro não passa de um modo diferente de fun­cionar – de preferência sem drama nem vencedores. De acordo com a revista, enquanto os muito falantes, por viverem fora da concha, superam situações desconhecidas e cultivam relações de maneira mais natural, os tímidos tendem a ter mais concentração diante de uma tarefa, a trabalhar com maior produtividade, a perceber antes dos outros quando algo não vai bem e a escutar com mais zelo.

Convenhamos [e os extrovertidos que perdoem a tímida que aqui escreve]: saber disso é um alento nestes dias de tanto blá-blá-blá, tanto todo mundo tem uma opinião sobre tudo, tanto minhas noites são mais animadas que as suas e meus dias, mais felizes; cada um gritando pra preservar o seu pedaço e pronto acabou.