13 coisas que aprendi em 2013

1. Não importa o quanto você se esforce. Sempre vai haver alguém para achar que não foi o bastante. Apesar disto, devemos acreditar o quanto possível, fazer o melhor que estiver ao alcance e seguir em frente, a despeito de todos os desapontamentos.

2. As plantas, como os melhores afetos, não sobrevivem sem cuidado. A exceção são as Zamioculcas, uma espécie original da Tanzânia, afeita ao nosso clima, visualmente exuberante, mas pouquíssimo exigente com as regas, as adubações e as podas.

3. Pouca coisa na vida não melhora depois que a gente respira devagar e fundo. Erica Abi Wright sabe exatamente o que canta com seu vozeirão texano: “If you start breathing then you won’t believe it you’ll feel so much better”. #Fato.

[Também aprendi com 2013 que hashtags podem ser legais].

4. De acordo com o Google Maps, o sentido da vida está na Avenida Dr. Antonio Moraes de Barros, número 90, Centro, Atalaia, Paraná. O CEP é o 87630-000.

5. Um copo de suco natural acompanhado de uma fatia de pão integral no café da manhã faz toda a diferença na disposição que levamos para o resto do dia. Espreguiçar o corpo também é um santo remédio.

6. Precisamos aproveitar melhor a comida apesar dos defeitos físicos, apostar sempre que possível em frutas, legumes e verduras sem agrotóxicos, usar casca de abacaxi pra fazer suco, tomates ligeiramente passados pra fazer molho e um monte de outras receitas com sobras que tem gente por aí ensinando a fazer. Não dá mais pra jogar tanta comida fora em um planeta onde uma em cada oito pessoas sofrem de desnutrição crônica. Simples assim.

[Doce de leite no meio da tarde continua valendo].

7. Determinadas tarefas que você desempenhava como se fossem feitas para você continuam caminhando na sua ausência, de uma maneira ou de outra. Perceber a verdade faz um bem danado à humildade e ao desprendimento.

8. A dica 171 do livro de autoajuda de capa amarela é inacreditavelmente eficiente, apesar de livro de autoajuda ser aquela coisa: ao começar o dia, quando a energia está alta, separe uma hora para se dedicar sem interrupções a um item importante da sua lista de tarefas.

9. O ciúme envenena o cotidiano e atrasa o início de boas amizades.

10. Reformar uma roupa que não dá mais, tirar a manga feia de um vestido de resto lindo, cortar no comprimento de uma saia de fina estampa, soltar a prega de uma calça e voltar a respirar dentro dela alegra o guarda-roupa, o bolso e o planeta.

11. As pistas da vida estão todas no boletim da escola. Com a palavra, a cronista da cozinha Nina Horta: “Todos nós temos um ou mais focos de burrice irreversíveis e a gente sabe bem quais são. Se guardamos os boletins do primário já não precisamos quebrar muito a cabeça. 10 em português, 4 em matemática, 8 em história, 10 em polidez, 5 em geografia. Quase um século depois você ainda estará escrevendo bem, jamais terá brigado no trânsito, fala baixo, faz conta nos dedos e se perde à toa”.

12. O vaivém dos peixes é um calmante e tanto, eles ali, sem irritação, impaciência ou teimosia, sem ciúme do outro peixe, sem medo da morte ou coração partido, sem trabalho por fazer ou vontade de desistir, sem raiva, pena de si mesmo, pessimismo, pensamentos malvados, dor no cotovelo, sem culpa ou rancor, apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade, e depois voltar.

13. Acupuntura funciona de verdade.

carta aberta a antonio prata

Vitória, 28 de novembro de 2013
Prezado Antonio Prata,

Chorei com o chorador inteiro enquanto lia a carta que você publicou no jornal para um amigo que andou distante pelos últimos anos. Chovia lá fora, e um pouco também dentro de mim, porque era uma daquelas noites em que chove dentro da gente, sabe?, uma chuva fria como o mês de julho, contínua como os piores fantasmas, íntima como o poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho – a gravata do urubu, as quatro teorias de árvore, a palavra parede, as rachaduras e os vermes, Seu França o violeiro, as cigarras, o escuro, as casas habitadas por morcegos, as ruínas, aquilo tudo.

Pensei na minha amiga que veio visitar a cidade e eu soube apenas pelo Facebook, nos desencontros que colecionamos porque falta tempo ou então vontade, naquelas ausências que a gente sente todos os dias, ocupando um espaço tão discreto e constante que é como se sempre tivessem estado ali. Pensei na falta de assunto que empurra a gente pra longe, nos desentendimentos que o rancor trata de deixar com forma e cor e consistência, nas ofensas subentendidas, no peso dos anos para o desgaste das emoções. Pensei nas noites em que pareceu que seríamos inseparáveis.

[Não fomos].

Pensei nas pessoas que um dia morrem na gente, mesmo que continuem vivinhas da Silva – um amigo que telefona só quando quer ajuda ou um amor que gastou todas as chances que tinha, a criança que um dia morou dentro da gente ou o sujeito que viajou pra longe sem dizer que ia, um dia qualquer, como hoje ou ontem ou a terça passada, um dia de agosto ou no meio do carnaval, um dia de vento sul ou calor dos infernos, de boca nervosa ou falta de apetite, de cabelo desgrenhado ou os cachos no lugar.

Pensei naquele livro [lindo] dos inseparáveis amigos de Minas, o sujeito com inteligência de poeta e uma profunda falta de jeito pra viver, o pobre-diabo lírico cheio de riqueza interior, o homem mais capaz de ser amado do que de amar. Pensei neles e nas madrugadas que eles varavam puxando uma angústia diante de temas habituais como el sentimiento trágico de la vida, le recherche du temps perdu, to be or not to be.

– Você já pensou que daqui a cem anos estaremos mortos?
– O que são cem anos, diante da eternidade?

Pra mim ainda não era uma questão o fato de daqui a cem anos estarmos mortos, como também eu não diria, tomando a liberdade de responder a pergunta de uma carta alheia, que o colesterol se transformaria em um inimigo ainda mais assustador que a rotina. A que ponto chegamos, não?

As minhas saudades estavam igualmente acumuladas, exatamente como você escreveu, parecendo adivinhar as minhas ausências, 10, 12, 15 anos de afetos, as madrugadas regadas a gim com tônica, as perguntas que não sabíamos responder a respeito do sentido da vida, as conversas em que dizíamos, ouvíamos, sorríamos, bebíamos e depois tudo outra vez. Como elas fazem falta, não?, e como, engolidos pelas tarefas diárias ou por causa da engrenagem da máquina do mundo, pelo comodismo ou pela suave tristeza da vida, deixamos que continuem a fazer.

Pensei nas vezes em que não liguei porque não sabia o que dizer, nas mudanças que não acompanhei, nas vitórias que não contei, nos dias e respectivas noites que se passaram sem que eu soubesse onde andavam os meus queridos, e fazendo o quê. Reli o que você contava sobre honrar compromissos, ganhar dinheiro, criar famílias, explicar uma filha, comprar uma esteira ergométrica e quem sabe abrir mão de coisas importantes no caminho. E chorei, Antonio Prata; chorei com o chorador inteiro enquanto lia sua carta para um amigo que andou distante pelos últimos anos.

nós, os tímidos

Meu marido trouxe do supermercado as batatas que faltavam pro jantar, uma embalagem extra de amaciante de roupas, a Coca Cola do final de semana e o tema desta crônica. A figurinha corada e sorridente da capa da revista, ele dizia, era a minha cara. Um pouco acima dos olhos, na testa do smile ligeiramente envergonhado, as letras brancas avisavam: “Eles já foram malvistos, mas agora a ciência revela que os tímidos são mais criativos, focados e bons líderes. Chegou a vez dos introvertidos darem lições aos extrovertidos. Silêncio, por favor”.

[Viva!]

Charlie Brown, seu amor discreto pela menina dos cabelos vermelhos, o cartão apaixonado que nunca saiu do bolso e o convite que ele quase recusou para viajar à França porque era novidade demais para o seu coraçãozinho foram os primeiros a aparecer quando abri a revista na página indicada. Em seguida vieram a canção dos Smiths sobre a timidez e um escritor norte-americano segundo o qual, depois de um longo período em que os expansivos eram os modelos a ser perse­guidos, as qualidades dos quietos vol­taram a ser valorizadas.

A História determina o seguinte: no passado, quando boa parte da população ainda vivia no campo, todo mundo conhecida todo mundo, mesmo os mais recolhidos. As cidades nasceram, a população cresceu e o mercado de trabalho apareceu, obrigando funcionários a cau­sar uma boa impressão em chefes e colegas com quem não mantinham laços anteriores. Porque falavam mais e vendiam de modo mais eficiente as próprias características, os extrovertidos tiveram melhor sorte.

O discurso da Química é outro. Diante de um cenário desconhecido, as amídalas, área do cérebro responsável por respostas mais instintivas, ligam o sinal de alerta, liberam adrenalina no sangue, aceleram os batimentos cardíacos e dilatam os vasos san­guíneos – inclusive os do rosto, o que explica a bochecha avermelhada da vergonha. Alguns segundos depois, quando a situação chega ao neocórtex, a parte do cérebro que forma decisões racionais avalia o caso e decide se precisa mesmo de tanto alarde.

Para a Psicologia, os tímidos são mais sensíveis a novidades, porque o neocórtex demora mais para acalmar o organismo quando precisa. O cérebro, nos dois casos, também relaxa de forma diferente. Nos introvertidos, o processo é comandado pela acetilco­lina, neurotransmissor responsável por memórias e planos; nos outros, quem manda é a dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e recompensa. O resultado, com algumas exceções: ler um livro sozinho não é diversão para os mais saidinhos e uma festa abarrotada de gente não traz alegria aos mais encabulados.

A boa notícia é que História, Química e Psicologia chegaram à conclusão que ser de um jeito ou de outro não passa de um modo diferente de fun­cionar – de preferência sem drama nem vencedores. De acordo com a revista, enquanto os muito falantes, por viverem fora da concha, superam situações desconhecidas e cultivam relações de maneira mais natural, os tímidos tendem a ter mais concentração diante de uma tarefa, a trabalhar com maior produtividade, a perceber antes dos outros quando algo não vai bem e a escutar com mais zelo.

Convenhamos [e os extrovertidos que perdoem a tímida que aqui escreve]: saber disso é um alento nestes dias de tanto blá-blá-blá, tanto todo mundo tem uma opinião sobre tudo, tanto minhas noites são mais animadas que as suas e meus dias, mais felizes; cada um gritando pra preservar o seu pedaço e pronto acabou.