mente, espinha, coração

Há algum tempo acredito no que dizem os terapeutas corporais a respeito do corpo ter a forma das histórias pessoais, dos afetos, da cultura, dos tropeços, dos limites, dos vazios, do jeito como a gente dança pelo mundo – ou então como se esconde.

Acredito igualmente que a raiva dói o estômago, o amor enche o peito, o cansaço pesa o pescoço, a alegria flutua as pernas, a saudade amarra os braços, a presença é exatamente o contrário. Acredito que cada dor, cada riso, cada vontade, cada graça, cada falta, cada coisa grita no pé, no tornozelo, nas batatas, no joelho, nas coxas, na cintura, no peito, no pulso, pro lado, na cabeça, e de repente fica mais evidente do que nunca o quanto braços, pernas, pescoço e cérebro sentem um as sensações do outro, pensam um as ideias do outro, tomam um a medida do outro.

A teoria é antiga e certeira, com o perdão do lugar-comum: o corpo diz muito do que precisamos ouvir sobre o que vai dentro, sobre as dores e respectivas causas, as alegrias e suas raízes, a euforia e seu oposto. Estamos inteiros interligados, uma noite mal dormida e o mau humor de um dia inteiro, um prato cheio de gordura e o desânimo durante o expediente, apego demais e o fígado ruim, músculos retesados e o medo de perder afetos e coisas, enxaqueca e um pote até aqui de mágoa, ciúme em excesso e o estômago tocando um samba descompassado.

A verdade, meus amigos, é que a maioria de nós cuida mal de si mesmo.

Ouvi um médico dizer que passamos a vida tentando vencer a ação da gravidade e que, se estamos cansados, chateados ou desanimados, deixamos que braços, cabeça e coluna simplesmente desabem. Não é fácil [quem dera!], mas se, e quando, aprendemos a ler o manual do proprietário escondido entre os tecidos do corpo entendemos de quanta distância, quanto abraço, quanto sono, quanto sorriso, quantas canções e quanto colo precisamos para curar as doenças ou manter a boa forma dos braços, das costas e do sistema digestivo, perna e bunda, tornozelo e joelho, coxa e pulso, cabeça, sensação, casamento, trabalho, sono, contas, tudo. Quando não, as consequências pesam, literalmente.

[Ai.]

A Ciência garante que a postura que adotamos ao andar ou sentar tem influência direta e imediata no modo como nos sentimos. A coluna encurvada e a cabeça baixa, por exemplo, indicariam energia em falta ou talvez aquela sensação, sabe?, de carregar o mundo nas costas. Os dias de mochila levinha, ao contrário, não doem nada. São como flutuar nas madrugadas, dançar engraçado, achar a vida fantástica como a fábrica de Willy Wonka, estar disperso como nos domingos, desapegado como o homem que morava na calçada, simples como as crianças.

Os dias de mochila levinha [delícia] são exatamente como a velha canção manda que seja a vida toda, quase um mantra, repete, repete, respira, repete, respira, repete e de novo, até que um dia, enfim, a gente aprende que, de fato, tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

da série leituras: hélas, luis fernando verissimo

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Deus criou o Céu e a Terra e o Dia e a Noite, e deu nome às plantas, aos bichos e às coisas. Mas também era preciso dar nome aos sentimentos e às emoções, a perplexidades e a situações inusitadas e, sentindo-se despreparado para a tarefa, Deus criou os franceses.

Os franceses têm a expressão certa para tudo, inclusive para o inexprimível, que eles chamam de “je ne sait quoi”. O francês é a única língua do mundo com uma definição para a incapacidade de definir. Eles não apenas têm um nome para “fazer beicinho”, “bouder” como inventaram uma peça da casa que teoricamente existe só para a mulher se recolher enquanto o faz, o “boudoir”. Outra expressão francesa que não ocorreria a mais ninguém é “esprit d’escalier”, ou o espírito que só se faz presente quando a gente já está descendo a escada, depois de falhar na hora de ser brilhante. Se não fossem os franceses, não saberíamos como chamar a sensação de que a boa frase ou a resposta arrasadora geralmente só nos vêm quando não adianta mais. Na escada ou, mais recentemente, no elevador.

Outra boa frase francesa era “epater les bourgeois”. Caiu em desuso, em primeiro lugar, porque todas as frases prontas francesas foram ficando antigas num mundo cada vez mais americano, mas também porque foi ficando cada vez mais difícil espantar a burguesia. Depois da revolução sexual e do escancaramento da privacidade, nada mais espanta ninguém e o que antes chocava hoje vira moda.

O que ainda funciona – tanto que, no Brasil, se transformou num gênero jornalístico – é “epater la gauche”, contrariar o pensamento convencionalmente progressista, ou apenas correto, com reacionarismo explícito. Os “epateurs” da esquerda podem ser divertidos, mas como em todo “succès d’escandale” (que remédio, sou um antigo) nunca se sabe se o sucesso se deve ao talento para escandalizar ou se o escândalo dispensa o talento, e basta ser contra para aparecer. De qualquer maneira, “hélas”, aos poucos as frases feitas francesas vão perdendo a atualidade e – ça va sans dire – a utilidade.

Hélas, Luis Fernando Verissimo
Outubro de 2013