cem anos de solidão

De repente reapareceu aquele livro. Um sujeito que conheci no avião contou que havia acabado de reler “Cem Anos de Solidão”, repetindo aos 40 o ritual dos 20 e dos 30, o de voltar a Macondo a cada dez anos, imagino que para redescobrir as coisas por diferentes óticas do tempo, vê-las de outro modo, primeiro com angústia, depois com pretensão e aí sim com certa – mesmo que ainda não definitiva – serenidade. Dois dias depois, o exemplar azul com ilustrações simpáticas que comprei há séculos no Centro caiu, literalmente, da estante do quarto.

Eu tinha mais o que fazer, era verdade; tinha armários por arrumar, compras por comprar, poeira por tirar, ressaca por curar, o urgente, o importante e o imprescindível separados pelos post-its em cor e ordem de importância, três amarelos, um verde e o outro alaranjado como o sol dos desenhos de criança. Tinha “Ensaio sobre a Lucidez” [empréstimo], “Na Pior em Paris e Londres” [presente], “200 Crônicas Escolhidas” [escolha], uma biografia de Ernesto Che Guevara [não sei] e o projeto prometido [obrigação] na pilha dos não lidos, as revistas do mês, o sono atrasado e aquela saudade antiga que não doía muito mais, só que também não sossegava.

Mas tinha também certa e reverência a livros que caem da estante, apesar dos post-its, das urgências e das importâncias, do sono e de todo o atraso. Então obedeci, e comecei a reler o livro que li pela primeira vez quando fazia pré-vestibular, e outras duas quando já estudava Jornalismo, no auge da descoberta do meu amor pelas palavras, pelas perguntas mal respondidas e pela ideia fixa e nem sempre bem-sucedida de que palavras, perguntas e ideias podem mudar o mundo.

A cada uma das vezes foi um livro diferente, embora fosse sempre a mesma a saga do Coronel Aureliano Buendía, que muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar com o dedo, e a cada página, eu pensava em Rebeca, Amaranta, Úrsula e Fernanda e no menino nascido com rabo de porco, nos Josés Arcádios, nos Arcádios e nos outros Aurelianos, que agora podiam ser eu, você, qualquer um; pensava na dor das estirpes condenadas a cem anos de solidão e no fato, no fundo consumado como a canção, de que elas não tinham uma segunda chance sobre a Terra.

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3 comentários sobre “cem anos de solidão

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