o pecado favorito do diabo

De tempos em tempos, caminho de volta para a lição preciosa do livro de páginas amareladas e letra miúda: a humildade torna todas as outras qualidades discretas. Diante dela, polidez, prudência, coragem, justiça, generosidade, misericórdia, gratidão, pureza, simplicidade, tolerância, doçura e bom humor são como que despercebidos de si mesmos, discretos e silenciosos como a morte dos camponeses, artistas e feiticeiros da África que acreditam ter nascido com uma quantidade determinada de palavras na barriga e, quando o estoque acaba, a vida também se encerra.

[Os dogons são demais.]

Humildes, explica o filósofo da letra miúda, são aqueles que não celebram as vantagens que têm, nem mesmo a própria modéstia. Os vaidosos são justo o oposto. Exaltam o que não precisa ser exaltado, valorizam o umbigo no lugar do sorriso, investem no corpo no lugar do espírito, ilusão no lugar da realidade, arrogância no lugar do diálogo, a própria opinião no lugar do aprendizado. A humildade talvez seja parente próxima do desapego, jogar fora, doar, vender pro sebo, colocar em exposição no bazar do final da rua, diminuir a pilha de livros à mercê das traças, de vestidos que há algum tempo deixaram de cair bem, de panelas e garfos e facas que não servem, de rancores, lembranças e histórias que o coração não quer ou o estômago não aguenta.

Talvez seja parente próxima da confiança, crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, na promessa de dias melhores, numa história sem garantias de final feliz, na manicure de alicate afiado ou no simples ato de dormir abraçado ou fazer que dorme, só pra aproveitar o braço. Talvez seja, ainda, parente da suavidade, da generosidade, da tolerância e da sabedoria, transformar peso em força, exemplo em inspiração, limão em limonada. A humildade talvez seja parente próxima da beleza, ou então da simplicidade, aquela que o implacável imperador encontrou, depois de duas décadas de conquistas e crueldades, em uma pequena horta na sua terra natal.

Certo dia, diante da sugestão de que retornasse ao poder, o ex-imperador teria dito:
– Se você visse meus lindos repolhos, não pediria uma coisa dessas.

Ser humilde, no entanto, não é tarefa fácil. Exige tempo, cuidado, afeto e paciência, um treino – alguém disse, com toda razão – pra toda a vida. A vaidade, ao contrário, vem de outra família, e dá as caras com muito mais frequência e facilidade, seduz, insiste. E tome julgamento equivocado de alguém que se acha melhor do que na verdade é, tome ingratidão desmedida, querer levar os méritos do trabalho alheio, necessidade constante de parecer feliz o tempo inteiro, bem resolvido e bem-sucedido, na revista, no Facebook, no encontro dos amigos, em qualquer lugar. A vaidade talvez seja parente próxima da inveja, querer o que o outro conquistou, usar métodos duvidosos para fins igualmente. Talvez seja, ainda, da família da violência, mais sutil que a das páginas policiais, mas malvada igual.

A vaidade é o pecado favorito do diabo, dizia o capeta em pessoa, naquele filme de 97, duas horas e 25 minutos de palavras afiadas, pesadelos em vermelho e a ideia certeira segundo a qual escolhas têm efeitos, consequências e correção monetária, exatamente como o Ensaio sobre a Natureza dos Juros ensinava que seria: estômago, amores, espíritos e música sujeitos aos acréscimos monetários de quem empresta a quem paga, mais ou menos do mesmo modo que a Economia. O resumo da ópera era simples como a humildade: opções diferentes cobram preços variados, e a vaidade custa caro, mesmo que à primeira vista não pareça.

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