de rotinas

A verdade é que, a despeito do que dizem de mal delas, gosto de determinadas rotinas. Gosto de listar as tarefas do dia para que elas não escapem ao longo do expediente, de escrever um texto novo a cada terça-feira, de escolher o disco conveniente antes de cada faxina. Gosto de sorver o café devagar enquanto vejo o movimento da varanda, de espalhar o jornal pela sala e depois ler, pedaço por pedaço, recortando o que interessa e elaborando notas mentais ou a lápis. Gosto de almoçar duas vezes no domingo, e que os dias de sol passem devagar.

De uns dias para cá, dei para gostar também de gastar um tempo diante dos peixes. O Telescópio menor é pura calma e parece ter uma resistência incomum. Dócil como é fato entre sua espécie, embora um bocado bagunceiro, convive em harmonia com tipos pouco agressivos – aprendi que os outros, ao contrário, mordiscam suas nadadeiras frágeis e ferem seus olhos protuberantes.

As Coridoras são mais tranquilas ainda. Nascidas na Argentina ou no Sul do Brasil com o nobre objetivo de manter a casa limpa, gostam de águas com temperatura média [frias demais pro meu gosto, entre 24 e 28 graus] e passam quase todo o tempo recolhendo o lixo produzido pelos colegas de aquário, paradinhas da Silva ou com movimentos sutis.

O outro Kinguio, maior e mais clarinho, é justo o oposto: agitado, travesso, inquieto, um desassossego só. O vaivém dele é constante, e vai saber o que se passa ali, se irritação, impaciência, fome ou teimosia, se ciúme do outro peixe, preguiça de ficar parado ou nada disso, apenas nadar, de um lado até o outro, sem medo da morte ou coração partido, sem trabalho por fazer ou vontade de desistir, sem raiva, pena de si mesmo, pessimismo, pensamentos malvados, dor no cotovelo, sem culpa ou rancor, apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade, e depois voltar.

Gosto de pensar nas lições dos peixes.

Gosto de reencontrar os queridos, café, cinema, Original, os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem o útil, o fútil, o fundamental e o nem, as pernas que batem pela cidade, as mãos que ajudam a secar o choro e a enterrar os que nos deixam cedo, o braço que aperta, olho, boca, nariz, joelho, pescoço e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo. Gosto do ritual dos melhores diálogos, calma, ouvido, palavra, canção, às vezes vinho, a cabeça aberta, o coração aberto igual e quem sabe duas Margaritas.

[Tudo isso me faria feliz].

De certas rotinas eu não gosto, esperas compridas, silêncios impostos, insônia constante, ausências longas. Prefiro ao contrário, a feira de sábado, pastel, curau, plantas novas, queijo, tapioca, calcinhas de algodão, folhas frescas para a salada, morangos e tangerinas ou então as couves líricas que o velho Braga via com suave emoção; as exclamações patéticas a respeito dos tomates estarem pela hora da morte, a fragrância das coisas nascidas na terra, as ervas misteriosas e o constrangimento amarelo dos abacaxis que ele descrevia daquele modo bonito de descrever dele.

[Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição].

Não chego a querer ser como o poeta hipocondríaco e peripatético que conheci estes dias pelo jornal – cardápio organizado, livros em ordem, os mesmos rituais diariamente. Mas gosto, realmente gosto, de determinadas rotinas, listar as tarefas do dia para que elas não escapem, escrever um texto novo a cada terça-feira, sorver o café devagar, espalhar o jornal antes de elaborar notas mentais ou a lápis, almoçar duas vezes no domingo, a feira, os dias de sol e olhar os peixes, sem impaciência, sem ciúme, pena, pessimismo, pensamentos malvados, aquela coisa: apenas cumprir a tarefa de ir de um lado para o outro com leveza e simplicidade, e depois voltar.

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