a harmonia das esferas [ou de como nascem os pequenos milagres]

Dizem que compreender uma questão pode funcionar como um pequeno milagre.

Entender o tempo, por exemplo, instala uma tranquilidade e tanto, respirar antes da explosão, suavizar antes do julgamento, reduzir as expectativas, esperar um pouco além do previsto, com toda calma possível dentro. O caminho é aquele, tão difícil quanto inspirador: saber, como sabiam os primeiros físicos, que um segundo representa 9.192.631.770 oscilações entre dois níveis do átomo de Césio 133, e ainda não se inventou nada capaz de acelerar ou retardar a unidade que os homens criaram para medir o andar da carruagem, há mais ou menos 59 milhões de anos.

Entender o que realmente importa é bom igual, aceitar o verde da grama da gente independentemente dos tons do jardim vizinho, estar inteiro em um projeto, um amor ou um propósito, ficar próximo do que nos emociona e dispensar o resto. O caminho é aquele: saber, como sabiam os evolucionistas, que as imperfeições estão por trás das estruturas do mundo e, por isso, determinadas desconformidades encostam na ciência, na arte, nos encontros, nos diálogos e na vida toda de modo tão decisivo quanto a métrica dos versos perfeitos.

Entender as faltas também faz bem, investir na capacidade de superar as adversidades e perdoar, profundamente, até aqueles que nos prejudicam simplesmente porque são movidos pela vaidade, pela prepotência ou pela insegurança. O caminho é aquele: saber, como sabia o compositor, que melhor que o poder é a potência, ação e criação, entendimento e desapego, verdade, violão e cantar mesmo que desafinado, aquela presença silenciosa, suave e distante, os afetos verdadeiros, a horta vigorosa feita de manjericão, hortelã, alecrim, pimenta e nada de coentro, e pouca coisa a mais.

[Poder, ao contrário, vem da Política, não da Física, domínio ou controle, autoridade, apetites descontrolados e a certeza de que nada satisfaz qualquer tipo de descontrole, nem café, nem chocolate, nem juras de amor, nem mais dinheiro ou mais poder; nada].

Entender a Harmonia das Esferas, por fim, revela mais sobre a matemática do espírito e o equilíbrio do mundo do que descobrir os caminhos do Sistema Solar, tarefa inicial da teoria dedicada à observação dos padrões da natureza, do universo e do comportamento humano. O caminho é aquele: saber, como sabiam Pitágoras e seus discípulos, que o céu, as estrelas e a trajetória dos planetas são um conjunto perfeitamente afinado e a distância entre seus movimentos repete a distância entre as cordas musicais – para os estudiosos pitagóricos, a música era o principal símbolo do equilíbrio do mundo e também um meio de alcançar a estabilidade do espírito.

[Taí, gostei].

Depois deles, e ainda hoje, cientistas, filósofos, artistas e às vezes eu e você tentamos entender a realidade de maneiras mais ou menos cansativas e mais ou menos bem-sucedidas, dos sólidos perfeitos de Platão à simplicidade das crianças, das ideias de Newton e Einstein sobre o espaço, o movimento e a energia às conversas de uma ou mais madrugadas, da teoria das supercordas às canções. Porque é como dizem, de fato: entender o tempo, a grama, as faltas, o desapego, estar inteiro, as imperfeições, os encontros, a vaidade, as esperas, o andar da carruagem e a métrica dos versos perfeitos, por mais difícil que seja, pode funcionar como um pequeno milagre.

Anúncios