da série leituras

A Quinta História, por Clarice Lispector
Outubro, 1960

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. O remédio as atrairia como comida que também era. Morreriam. Assim fiz. Realmente morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só abstratamente me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam a quem era de direito, e escalavam os canos do edifício até nosso lar. Foi na hora de fazer a mistura que elas se individualizaram. Comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa; um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis, ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Fria, meticulosa, preparava o elixir da longa morte. Mêdo e rancor guiavam-me. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. A receita estava pronta. Tão bem espalhei o pó que nem se via, como para baratas espertas como eu. Horas depois, no silêncio da casa, da cama imaginei-as subindo uma a uma até a área de serviço, onde o escuro dormia – só as camisas alertas no varal. Acordei em sobressalto, era madrugada. E no chão da área lá estavam elas, duras. Durante a noite eu matara. Amanhecia. Um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Até o ponto em que, na madrugada seguinte, acordo. Ainda sonolenta, atravesso a cozinha. Mais sonolenta ainda está a área, na sua perspectiva de ladrilhos. E à luz primeira, num límpido arroxeado que que distancia tudo, vejo no chão sombras e brancuras. Dezenas de estátuas de baratas espalham-se rígidas. Endurecidas de dentro para fora. Testemunho o primeiro alvorecer de Pompéia. Revejo-lhes a última noite, na orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido aos poucos, e, com movimentos cada vez mais penosos, elas ainda tentam fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto. Outras, assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer a intuição de um molde interno que se petrifica — de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da bôca. Uma, azulada, terá sentido: “quem olhar para dentro, vira estátua”. De minha altura de gente olho a derrocada de um mundo. Começa a amanhecer. Uma ou outra antena escura freme sêca à brisa. Da história anterior, canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Até o ponto em que vejo os monumentos de gesso. Mas olho também para os canos, por onde à noite renovar-se-á uma povoação lenta e viva. Teria eu então que renovar tôdas as noites o açúcar letal? – como quem não dorme mais sem o ritmo de um narcóticos. E tôdas as madrugadas levantar-me-ia sonâmbula? – viciada na tortura de procurar no pavilhão as estátuas que minha noite cansada erguia. Senti um mau prazer na visão de uma dupla de feiticeira, e também o aviso do gêsso que seca. E é por isso que hoje, com orgulho da virtude, ostento secretamente no coração uma placa: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Uma Alma Refeita”. Começa assim: queixei-me de baratas.

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