pequeno dicionário do mundo [ou de como ele devia ser]

Andrés Felipe Bedoya ainda não tinha vivido uma década quando produziu um dicionário com coleguinhas da escola rural em que estudava, no leste da Colômbia, um lugar em que ser criança às vezes inclui atividades como trabalhar duro e ter parentes mortos pela guerrilha e pelo tráfico. Adulto é uma pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro de si, ele escreveu, para explicar a palavra começada com A. Seu amigo Duván Arnulfo Arango, de 8 anos, descreveu o céu como o lugar de onde sai o dia. Ana Milena Hurtado, de 5, enxergou Deus como o amor com cabelo grande e poderes. Para Iván Darío López, de 10, solidão significava a tristeza que às vezes dá na gente.

Bianca Yuli Henao, de 10, definiu tranquilidade como “por exemplo quando seu pai diz que vai te bater e depois diz que não vai”, enquanto Juan Alzate, de 6, decretava mãe como aquela que entende e depois vai dormir. Natalia Bueno, de 7, estabeleceu igreja como o lugar em que a pessoa vai perdoar Deus. Colômbia é uma partida de futebol e violência, a parte ruim da paz. A paz, por sua vez, é quando a gente se perdoa e sentir inveja se parece com atirar pedras nos amigos. Sexo é alguém que se beija em cima de outro e tempo, uma coisa que passa para lembrar. Camponês significa alguém que não tem casa nem dinheiro, somente seus filhos.

Eles têm uma lógica diferente, outra maneira de entender o mundo, outra maneira de habitar a realidade e revelar coisas que esquecemos, declarou o professor que reuniu as definições, quase 500 delas, para 133 palavras diferentes. Algum tempo antes, o mesmo professor – seu nome é Javier Naranjo – havia pedido aos alunos uma definição do que era uma criança e recebeu como resposta que criança é um amigo que tem cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo.

No dicionário dos adultos, as definições estão ligeiramente diferentes. A palavra com A que o menino Bedoya descreveu como a pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro de si aparece como ser emocional e intelectualmente maduro, que demonstra capacidade de agir, pensar ou realizar algo de maneira racional, equilibrada e sensata. Céu é o espaço onde se localizam e movem os astros, o local onde habitam Deus, os anjos, os bem-aventurados e as almas dos justos. A ideia a respeito de Deus também cresceu e, no dicionário dos adultos, Ele virou o ídolo fabricado pela mão do homem e ao qual o primitivo rende culto e atribui poderes.

Solidão aparece explicada como a sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado em meio um grupo social, um pouco diverso, uma vez mais, do que via Iván Darío López, do alto da simplicidade de seus 10 anos de idade, aquela, sabe?, com que vivem os que estão à espera das descobertas, prontos para aprender o mundo inteiro, afeto, palavra, certeza e dúvida, a matemática do diabo e a química dos corpos, as canções, os livros, os filmes, os quadrinhos da Marvel, os encontros e os desencontros – solidão é a tristeza que às vezes dá na gente.

Tranquilidade é calma, bonança, sossego, retiro, segundo o dicionário grande; mãe, uma mulher que deu à luz, ou que cria ou criou um ou mais filhos, um modo, há que se notar, bem menos comovente do que o olhar de Juan Alzate. Violência surge como ação ou efeito de empregar força física ou intimidação moral, ato violento, crueldade ou força e paz, seu exato oposto. Inveja designa o desejo irrefreável de possuir ou gozar, em caráter exclusivo, o que é possuído ou gozado por outrem [e o pronome outrem, graças ao grandioso e bom, não faz parte do dicionário das crianças].

Sexo aparece na página 634 como o contato físico entre indivíduos envolvendo estimulação sexual dos órgãos genitais e tempo tem uma definição tão grande que nem combina com a beleza da coisa em si, cinco letras, gramática, música, física, meteorologia, poesia, crônica, esperas, movimento ou então o jeito que a natureza deu pra que as coisas não acontecessem todas num único instante. A Colômbia que Diego Giraldo via como um jogo de futebol e onde Florentino Ariza e Fermina Daza andaram naquele ir e vir do caralho por cinquenta e três anos, sete meses, onze dias e respectivas noites não consta no dicionário dos adultos.

da série leituras: a feira

A Feira
Por Rubem Braga

Passa gente vindo da feira. Agora temos uma feira aqui perto de casa. Para mim apenas movimenta a esquina, com tantas empregadas e donas-de-casa carregadas de sacos e cestas de frutas, verduras e legumes. Ao poeta Drummond, que mora mais além, a feira deve incomodar, porque os grandes caminhões roncam sob a sua janela, e o vozerio dos mercadores e fregueses perturba o seu sono matinal.

O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo é bom que os poetas estejam vigilantes. Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição. O poeta é mais adequado para ouvir as exclamações patéticas [“os tomates estão pela hora da morte”] e tomar o pulso dos fatos concretos da mercancia local. Além disso deve subir até a sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadurecem no meio do inverno.

Passa um homem careca, sério; deve um velho funcionário, e tem o ar de quem discute muito nas feiras, capaz de citar o preço dos pepinos em 1921 e de lamentar, como prova de decadência espiritual do Ocidente, o atual tamanho das bananas. Sim, eram maiores as bananas de antanho. A acreditar nele as bananas-da-terra dos tempos coloniais mediam toesas. Em todo caso, não parece ir muito triste; carrega dois sacos verdes e de um deles sai o pedaço de uma abóbora. Gosta de abóboras, o birbante.

“Não, senhora; só em doce, assim mesmo misturado com doce de coco” – respondeu aquele menino àquela dramática pergunta de sua velha tia sobre se gostava de abóbora. Essa resposta foi, na época, muito comentada como grave prova de insolência e talvez desagregação moral. Não era. Era uma prova de tolerância, boa vontade, anseio de compreensão; porque a vida é terrível é que o menino não gostava mesmo de abóbora e achava que o único defeito do doce de coco era conter, às vezes, por costume de família, um pouco de abóbora. Estava, entretanto, disposto a superar as próprias convicções em benefício do bem-estar geral. Tinha pudor de que pensassem que ele odiava abóbora; era uma criança no fundo delicada, embora tenha resultado em um homem com freqüência estúpido.

A feira, não sei por quê, me leva a essas divagações infantis; vagueio com suave emoção entre cebolas de brilho metálico e couves e alfaces líricas.

Há uma grata surpresa. A mais bela, esquiva e elegante senhora da rua está pessoalmente na feira. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Demoro-me em ver sua pele, seus cabelos, seus olhos, sobre um fundo de couves e beterrabas. Sua pele tem uma frescura vegetal. Suas mãos finas seguram os legumes com um experiente carinho. Quando vai para casa, um menino conduz suas compras. Ela, porém, fez questão de levar nas mãos, como sinal de alegria e de simplicidade, uma grande couve-flor.