biblioteca básica emocional

Há alguns anos fiz um trato comigo e, desde então, só quando termino de ler um livro ganho de mim mesma o direito de comprar outro. Os objetivos são cinco: contribuir para o equilíbrio do mundo, serenar a ansiedade da vida, aplacar o excesso das estantes, suavizar a poeira da casa e, feitas as contas finais, reduzir as cifras do cartão de crédito. Ao mesmo tempo, antes que recomece a temporada das chuvas, passo os olhos pelas prateleiras para reiterar minhas devoções ou – justo o oposto – descartar autores, volumes e ideias que simplesmente não cabem mais.

A sensação é das melhores e a escolha [que maravilha!], menos e menos difícil a cada vez.

Se o autor daquele texto sobre livros, desapego, obsessões e a vida errante de Walter Benjamin em 1931 tem razão, e acho que de fato tem, em cada título de uma biblioteca particular existem uma cidade e um momento – e provavelmente também muitos afetos. O velho exemplar de O Lobo da Estepe, por exemplo, remete a uns 15 anos atrás, Vitória, vento, lagoa, tardes infinitas como o nome do programa do rádio, o mundo inteiro pretensiosamente à espera de descoberta enquanto Harry Haller desperdiçava as horas com sua maneira arredia de ser.

[Ele havia aprendido quase tudo que pessoas de bom entendimento podiam aprender, menos estar contente com a própria vida.]

As Crônicas Parisienses de Rubem Braga, ao contrário, são agorinha mesmo, exatos cem anos depois do nascimento do homem que evitava ouvir tangos porque acreditava que um tango, a certa altura, podia ser fatal. Vejo Londres na biografia amarga de Charles Chaplin, cinza e implacavelmente necessária, Londres e a loucura, Londres e o riso, Londres e a revolução. Vejo a Cidade Alta, e não a Colômbia, no ir e vir do caralho que Florentino Ariza e Fermina Daza protagonizam durante cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.

Vejo o Ensaio Sobre a Cegueira e penso naquele dia em que eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir, e era como se o escritor de terno, gravata e olhos distantes estivesse certo quando determinou que o Brasil é uma república federativa cheia de árvores e pessoas dizendo adeus. Vejo, um pouco mais além, O Retrato do Artista Quando Jovem e outra viagem, de quando voltar voltou a ser bom, ponte, escada, praça, parede, quarto, estante, os discos displicentes à espera das madrugadas, as madrugadas em si e os silêncios que a gente exalta, abraça, investe, porque são, de fato, ótimos investimentos.

Deles não tem desapego que me faça abrir mão, nem deles nem de Drummond, Hemingway, Clarice, Carmélia e Carlinhos Oliveira, As Palavras e as Coisas, A Insustentável Leveza do Ser, os manuais do bom jornalismo, os latinos, as respostas das questões mais fundas ou então a dança das perguntas. Dos outros, pode ser, quem sabe, exatamente como aquele texto sobre livros, desapego, obsessões e a vida errante de Walter Benjamin inspira: olhar para dentro, pensar nos projetos de hoje e nos de logo mais, diminuir a pilha de livros à espera das traças, cuidar bem dos que ficam, rever lembranças, histórias e a própria vida, guardar o que vale e o resto adeus.

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