lembranças de um dia sem assunto

Quase sete anos se passaram desde que aconteceu comigo. Àquela altura do campeonato, era nítida a impressão de que tudo já havia sido dito, do futebol aos mistérios da memória, da saudade às angústias do tempo, da arte à Física, da fé às palavras de Clarice, dos óculos de sol recém-comprados às dores de cabeça em excesso, da corrupção, da propaganda e do sobe-e-desce das Bolsas de Valores, de uma canção em particular ou aquele álbum inteiro de capa branca e só o nome assinado no meio, do amor ou justo o oposto; tudo.

Oficialmente eu passava a fazer parte do time dos autores sem assunto, portadora da chaga da obviedade latente, a cabeça inteira branca pelo lado de dentro, nenhuma ideia, nenhum tema, nenhum som, recado; nada. Pela primeira vez na minha vida de cronista, não havia afetos pra serem ditos, reencontros pra serem lembrados, ladrão filho da puta pra ser xingado, ponte, pano de prato, estante, apenas um dia abafado pela absoluta falta de criatividade, algumas horas antes do horror, o horror chamado prazo de entrega.

Não havia sentimentos pra serem digeridos, diálogos pra serem exaltados ou então os silêncios que seriam igualmente exaltados um dia, ou até havia, mas vai saber. Não havia matemática, poesia nem química naquela semana de absoluta falta de criatividade. Nem a chance de ser como dizem são os bons escritores – que passam a vida inteira escrevendo o mesmo livro, como um jardineiro que regasse suas flores de obsessão – havia, nada, só a tela vazia diante da testa, dos óculos, da ruga de expressão, da cara lavada.

A boa notícia é que eu estava bem acompanhada [e bota bem acompanhada nisto]. Podia recorrer a Drummond e dizer que estava constrangida a exercer a tristíssima profissão de encher linguiça ou então lembrar Vinicius, quando reconheceu que, em certos dias, escrever uma crônica que fosse bem-feita e divertisse os leitores era missão impossível.

Podia descrever o horizonte ou, como Cony, a cara que via no espelho, descer ao bar da esquina e descrever o samba ou então, como João Ubaldo, apelar para uma piada ruim e outra pior ainda. Podia, até, quem sabe, defender a classe evocando uma vez mais o velho Braga, que, até quando parecia estar sem assunto, carregava alguma coisa, que era o peso de sua alma.

E olhem lá que não era pouco.

Carregar o que corre dentro de fato, não é pouco, bem ao contrário, um fardo desajeitado como o do ator em crise existencial que decide contratar uma empresa que extrai a alma dos agoniados. Talvez não fosse também o caso do velho Braga, que alguém já disse escrevia até melhor quando não sabia sobre o que escrever. Certamente não era, do mesmo modo, o meu caso àquela altura do campeonato, só a página em branco e nenhum tema para ocupá-la de modo satisfatório, ou então uns e outros, inconsistentes ainda, à espera de decantação, coar, chacoalhar, peneirar e depois aqui.

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