simples como as crianças

Eles brincavam alheios às promessas dos novos prefeitos, ao destino dos royalties do petróleo, aos números da inflação, aos acidentes nas estradas federais, ao fim do casamento da atriz da novela, a quase tudo. O fim do mundo previsto, anunciado e garantido no calendário maia também não preocupava, nem as notícias policiais, os bastidores da política ou o novo salário mínimo.

Viviam levinhos como vivem os que estão à espera das descobertas, prontos para aprender o mundo inteiro, afeto, palavra, certeza e dúvida, a matemática do diabo e a química dos corpos, as canções dos Beatles e os livros de Herman Hesse, os filmes de Charles Chaplin e os quadrinhos da Marvel, os encontros que a gente não espera e enchem a vida de sorrisos, os desencontros que a gente igualmente não imagina e fazem exatamente o oposto.

Ainda não sabiam muito da saudade ou do sufoco, da descoberta de um amor novo ou da possibilidade de consertar o antigo. Igualmente desconheciam a amargura do tempo e o medo do futuro, o horror das guerras ou a tragédia que é ter dor de cotovelo.

[Dói do cóccix até o pescoço].

Disto eles sabiam: que rir é tão preciso quanto viver e navegar, tão necessário quanto entender, tão exato quanto as melhores composições. Ou nem sabiam, só riam. Felizmente não tinham – ou se tinham era bem pouco – as bagagens dos dias difíceis, dor de cabeça, excesso de tarefas, ciúme, apego, gangorra, o mês que sobra no fim do dinheiro, estômago, amores, espíritos e música sujeitos aos acréscimos monetários de quem empresta a quem paga, mais ou menos do mesmo modo que a Economia.

Acreditavam, como a garota que perguntava, na imensa possibilidade das perguntas, na capacidade de dançar que elas tinham, desregradas, disponíveis, desimpedidas e ilimitadas. A única urgência que alimentavam era aprender as regras do Uno, o joguinho inventado nos anos 70 por um barbeiro de Ohio que precisava distrair os filhos, vermelho, verde, amarelo e azul, uma frase que não lembro agora e tudo resolvido.

Eram cinco crianças, três, sete, oito, dez e 15 anos, sotaques diversos, endereços distantes, origens diferentes. Em comum tinham alguns parentes, o gosto pela brincadeira, planos para a praia e um bocado de disposição. Pureza também não faltava, nem simplicidade, imaginação e uma capacidade de resolver as coisas que os adultos, muitas vezes, não conseguimos ter e os pequenos, muitíssimo ao contrário, parecem nascer sabendo.

8 comentários sobre “simples como as crianças

  1. […] As escolhas também se haviam tornado mais leves e menos dependentes [embora ainda] do músculo involuntário que mora entre os pulmões e bate também no peito dos anelídeos, dos artrópodes, dos moluscos, dos cordados e dos desafinados. A busca seguia aquela, a de ser como a maioria dos budistas, boa parte dos desapegos e as crianças em geral, sem bagagem, sem dor de cabeça, sem excesso de tarefas, sem gangorra, sem sufoc…. […]

  2. […] A Ciência garante que a postura que adotamos ao andar ou sentar tem influência direta e imediata no modo como nos sentimos. A coluna encurvada e a cabeça baixa, por exemplo, indicariam energia em falta ou talvez aquela sensação, sabe?, de carregar o mundo nas costas. Os dias de mochila levinha, ao contrário, não doem nada. São como flutuar nas madrugadas, dançar engraçado, achar a vida fantástica como a fábrica de Willy Wonka, estar disperso como nos domingos, desapegado como o homem que morava na calçada, simples como as crianças. […]

  3. […] Tomado por metástases sem controle, o homem extremamente imoderado no que diz respeito a qualquer uma de suas paixões optou por fazer o que talvez a gente devesse praticar um pouco todos os dias: apostar no essencial, entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto, como o goleiro na hora do pênalti, a bordadeira no momento do arremate ou as crianças que, naquela tarde de domingo, brincavam alheias a quase tudo. […]

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