pequeno brinde a rubem braga

Rubem Braga dizia que somos todos contrabandistas de nós mesmos, carregando dentro do porão da existência coisas que nem sabíamos que havia. Seu espanto, explicava, era que diante de tantos loucos ainda tivesse no mundo gente capaz de ser mais ou menos normal e viver dentro de certas regras, beijando as mãos das damas sem mordê-las e deixando um automóvel passar sem jogar pedras.

Para livrar-nos de todo mal amém, ou pelo menos de parte dele, uma das saídas do mestre da capital secreta do mundo apontava para a psicanálise, redescobrir toda a tragédia grega na alma de qualquer funcionário público, cutucar polvos e arraias enterrados na lama ou entocados nas pedras, entender a “consciência do que cada um de nós tem lá por dentro daquela porção de cordinhas e alçapões, e então seguir.

As outras saídas eram duas: a confissão dos crentes e a conversa na mesa de bar. A primeira, ele escreveu, tem a vantagem da fé, mas o natural recato impede maior profundidade. A segunda guarda as mentiras produzidas pela imaginação e pelo álcool, mas a poesia [que às vezes é só desconcerto] das confissões inesperadas, a moça antes recatada que pelo terceiro drinque desfila detalhes íntimos de seu último caso ou então aquelas, lembra?, de quando se quer saber das coisas e seus propósitos, da arte da fuga, da beleza do balanço, do gosto pelo sereno que o mundo é pequeno para segurar.

De modo menos sistemático que no confessionário e quase sempre mais em conta que na psicanálise, na mesa de bar a gente se encanta pela ginga, pelo olhar, pelo abraço, pelas possibilidades imensas que têm os começos das boas histórias, ouve os outros e, enquanto ouve, descobre mais sobre a gente mesmo, os princípios, a fé ou sua falta, os planos e o quanto precisa do braço, do cheiro e de café.

Na mesa de bar, a gente descobre e redescobre afetos, compartilha ideias, novidades e memórias, mastiga os livros, as faltas e os fatos, conhece ou reconhece os outros e fala da vida, fala incansavelmente. Às vezes não, mas muitas delas, ali, as coisas parecem se encaixar, riso, leveza, desprendimento, conversa em dia, piada nova, ou então as velhas, gim com água tônica, a lista das melhores canções, o filme da semana anterior, suavidade, aquilo tudo que devia ser o tempo inteiro.

Entre um jazz, um roquezinho e um samba, a gente vive com alegria, poesia e às vezes melancolia, numa combinação que purifica o sangue, ameniza as dores e alimenta o coração. Até os interesses ficam um pouco melhores, e agora são outra vez as palavras de Rubem Braga, 100 anos neste sábado, confissão, fé, profundidade, imaginação, poesia, confissão, beleza, alma, balanço, arte, tudo e um brinde:

– Ora, o que a gente ouve no quinto copo pode ser interessante se achamos algum interesse na própria pessoa que conta. Caso contrário, fica apenas a melancolia da triste condição humana, das experiências do amor, dos desencontros físicos e sentimentais, das incompreensões e dos fracassos.

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