de quando não dá

Tem dias em que simplesmente não dá. A lista de tarefas supera o tamanho do tempo, o desalento vence a força do braço, a criatividade desaparece do mapa que norteia as palavras e as coisas, e a gente simplesmente desaba. Os pratos ficam pela pia, as mensagens dormem sem resposta, os afetos esperam pela manhã seguinte. Os olhos pesam o peso todo do mundo, reunião, supermercado, academia, conserto, a compra que a loja entregou errado, o condomínio, a geladeira, a faxina, o horário, a vida, o peso todo.

Até as canções parecem inadequadas, uma depois do outra, e nenhuma parece capaz de conduzir ao sossego, nem aquele álbum inteiro de capa branca e só o nome assinado no meio, Irene ri, o barco vazio, um objeto não identificado, o marinheiro só, os argonautas, a Carolina dos olhos fundos, um objeto não identificado, Salvador, mil novecentos e sessenta e nove, que el mundo fué y será una porqueria ya lo sé, um objeto não identificado.

Tem dias em que simplesmente não dá. O desânimo supera o planejamento, o cansaço vence o compromisso, a vontade desaparece do mapa que norteia as ideias e os planos, e a gente simplesmente desaba. As roupas acampam no sofá, os livros permanecem na pilha, os encontros esperam pelo fim de semana seguinte. A coluna pesa o peso todo do mundo, banco, jantar, o exame que exige paciência, o encanador, a cadeira, a formatura, a agenda, a visita, a encomenda, a culpa, o peso todo.

O desafio, uma amiga aflita diz, coberta de razão, é encontrar o equilíbrio entre o que a gente gosta e o que precisa, fazer as unhas, cuidar da casa, entregar o projeto pro chefe, visitar a feira de orgânicos, sorrir para o marido, aprender francês, entender os apps, rever os amigos, escrever um pouco e, no fim das contas, encontrar alguns minutos e a disposição certa para testar a receita daquela torta de maçã e canela que derrete na boca.

[Delícia].

Ela sabe, e as conversas aqui e ali confirmam, que vivemos na era do tudo ao mesmo tempo agora, longe, muito longe, longíssimo daquilo que dizem que um antigo presidente norte-americano uma vez observou:

– “Não tivemos notícias de Benjamin Franklin durante este ano.
Precisamos escrever-lhe uma carta”.

Ela sabe, e as conversas aqui e ali igualmente confirmam, que a velocidade da informação cansa mais que alimenta e o quanto faz falta o modo quieto de ver o mundo, silêncio, pausa, suavidade, desapego, coisas assim, incomuns nestes dias de tanto radicalismo, tanta crítica, cada um tentando preservar o seu pedaço e pronto. Sabe também que a cobrança maior, muitas vezes, vem da gente mesmo.

Dizem que a melhor caracterização da mulher atual é a mulher elástica. É a tese de uma psicanalista. De acordo com ela, o modelo no qual nos espelhamos começou a existir a partir da década de 50, quando começamos a deixar o espaço doméstico para ocupar o espaço público e, com a mudança, assumimos mais e mais atividades, esticando o corpo, a cabeça e a agenda para dar conta de tudo.

Na visão de outra estudiosa, somos escravas de nossas próprias vontades desde que conquistamos postos de destaque no trabalho, mas as exigências em casa seguiram exatamente iguais, ou então maiores, obrigação, desejo, cozinha, entrega, panela, família, música, sorriso, madrugada, elástico, psicanalista, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, afeto, olho, faxina, planejamento, compromisso, livros, encontros, banco, jantar, exame, encanador, a vida, o peso todo, à espera de um pouco mais de tempo. Acontece que tem dias em que simplesmente não dá.

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3 comentários sobre “de quando não dá

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