carta aberta aos intolerantes

A verdade é que vocês passaram dos limites. Esqueceram as aulas sobre a física do respeito, ignoraram os capítulos sobre a matemática da polidez, aboliram qualquer noção sobre a geografia do equilíbrio. Afeto então nem se fala. Porrada virou argumento, tanto quanto desabonar a honestidade, a seriedade e as boas intenções dos outros com zero de conhecimento e nada de comprovação.

Pensar diferente não pode, só o mesmo candidato, o mesmo Deus, o mesmo time, o mesmo tempero, a mesma posição sobre o diploma em jornalismo, o mesmíssimo olhar sobre o mundo, a política, o cardápio, a fé, o futebol ou as regras de uma profissão, ou então a guerra, um porque nasceu judeu, o outro porque mudou de ideia, um porque votou sete, o outro porque não votou, um porque acredita no que o outro duvida.

A verdade é que vocês passaram dos limites. Esqueceram as aulas sobre a beleza da contradição, ignoraram os capítulos sobre a delicadeza do diálogo, aboliram qualquer noção sobre a suavidade das perguntas. Encanto então nem se fala. Ganhar no grito virou moda, tanto quanto desabonar os princípios, a conduta e as escolhas dos outros com zero de conhecimento e nada de comprovação.

Gostar de outra música não pode, só o mesmo acorde, o mesmo ritmo, as colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas no mesmíssimo compasso, ou então a guerra, um porque não sabe perder, o outro porque não enxerga os próprios defeitos, um porque não concorda com o amigo, o outro porque nem amigo é, um porque cultua seus santos, o outro porque detesta azul.

A intolerância, defendem os filósofos do velho livro de capa preta, tem sua origem na inclinação dos humanos a impor as próprias crenças, desde que disponham de algum tipo de poder para impedir que os outros levem a vida com bem entendam. Aprendemos a tolerância pouco a pouco, como aprendemos a controlar determinados músculos ou a jogar certas partidas. Muitos sequer aprendem, e daí agridem, em maior ou menor grau, na rua  ou no Facebook, no carro engarrafado ou no jardim do vizinho, na Argélia ou em Auschwitz, pedrada, torpedo, empurra-empurra, ofensa, processo, passeata, ironia, a janela ou a sala de estar destinados a acabar com qualquer sinal de divergência da maneira mais bruta possível.

A intolerância é o inimigo que nega toda a riqueza da conversa, defendem os filósofos do velho livro de capa preta. Quando a palavra fracassa, a violência entra em cena. Porque somos animais e por causa das nossas raízes biológicas, eles ensinam, não gostamos dos que são diferentes de nós, porque têm cor diferente de pele, porque falam uma língua diferente que não entendemos, porque comem rã, macaco, porco e alho ou porque fizeram tatuagens.

Então, diante das tatuagens, do velho livro e dos fatos, penso no que me disseram uma vez, que era preciso coragem para ter uma imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteira que num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber. Respondi que sim, era preciso coragem e um pouco de tolerância – justo o oposto da outra – para a dor. Porque quanto mais definitivas são as escolhas maior seu peso, mas que todas as escolhas sejam de alguma maneira definitivas, deixavam marcas, mesmo as menores.

Diante das lembranças, da capa preta do velho livro, da filosofia e dos fatos, penso no quanto faz bem ter coragem para debater, no campo das ideias, as diferenças que os intolerantes muitas vezes preferem resolver no grito. A verdade é que vocês passaram dos limites.

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