distâncias e sabores

Faz uns seis anos. Dois colegas chegaram à conclusão que, conforme os anos passam, nossas papilas gustativas perdem a sensibilidade para o doce e aguçam a simpatia por sabores mais suaves. Eu não sabia, e ainda não, se a ciência comprova a tese, mas notei, com o passar dos anos, que de fato cansei [um pouco, menos do chocolate] do excesso de açúcar e passei a prestar mais atenção aos ingredientes mais leves e ao gosto dos menores detalhes.

Suavidade faz bem, sorrir ao invés do contrário, deixar a cabeça, os amores e o nariz livres de restrições, manter a alma longe dos pesos e a mente sem apegos, deixar o espírito calmo até diante dos dias mais difíceis, até diante das noites mais conturbadas, apesar das perdas, das ausências, das distâncias. Suavidade é um pouco como aquela canção sobre folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos e dos receios, esquecer a data, perder a conta, aceitar a dor e, apesar de um mal tamanho, alegrar o coração.

[Falar com Deus também faz bem, dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido pela estrada que, ao findar, vai dar em nada, nada, nada, nada, nada… do que pensava encontrar].

As pequenas coisas igualmente enchem a vida de festa. Sair cedo do trabalho pra ver o mundo com o dia ainda claro enche a vida de festa, pedalar e na volta comprar pão caseiro do moço da bicicleta, desafinar debaixo do chuveiro, ver a lua da varanda. Tomar sorvete de cereja com cobertura de Nutella enche a vida de festa, exatamente como os amigos que aceitam as nossas mudanças, entendem as nossas dores, sabem ouvir de verdade e, com isso, ajudam a levar um pouco da dor irremediável de perder as pessoas, as coisas e o rumo, e também celebram com a gente, com motivo ou nem tanto.

Certas distâncias, ao contrário, embrulham o estômago. Espaço, explica o físico meio poeta, é o que separa as coisas, uma invenção para definir distâncias entre dois ou mais pontos ou entre dois ou mais objetos. Sem ele, estaríamos todos, gente e objetos, raivas e afetos, saudades e perspectivas, embolados no mesmo lugar. Vazios, por sua vez, são os lugares livres de gente e objetos, raivas e afetos, saudades e perspectivas.

Estar perto é justo o oposto, segurança, calor, gargalhada, confiança, madrugada, descoberta, dançar e as canções, a fé em Santa Rita ou então a religião particular do mestre Luis Fernando Veríssimo, devotado a pastéis, boas livrarias e ao deus do oboé, que, além de ser um instrumento divino, é o que afina todos os outros. Serve também a crença do artista que entrevistei outro dia: seus deuses são Chico Buarque, Milton Nascimento e Bezerra da Silva, ou então o horizonte, que ele contou que olhava insistentemente desde pequeno, para descobrir o que havia depois.

Foi dele, aliás, a ideia de fazer uma moqueca baiana para dois paulistas que vivem no Espírito Santo. O peixe servido com tomate, coentro, leite de coco, azeite de dendê e conversa de primeira estava mais delicado do que imaginamos que estivesse. Lembrava, e muito, a receita dos capixabas, feita em panela de barro com a técnica que, pelo que consta, determina a feitura da moqueca original: balançar de vez em quando com o auxílio de um pano grosso para que as postas não agarrem no fundo, sem mexer.

De sobremesa, havia mousse de limão, uma deliciosa contradição feita de doce e um toque de azedo, como as boas obras de arte e a maioria dos amores. Certas distâncias, pensando bem, têm algo de bom, ajudam a entender que, em certos momentos, a gente precisa suavizar um pouco para não perder a festa, a segurança, o calor, a confiança, os passos de dança, as canções e a fé.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s