a memória e o esquecimento

Ele acordou sem saber sobre quem era, do nome da esposa, do caminho do banheiro, da existência da filha, da profissão, do endereço, da idade, indiferente ao Flamengo e a qualquer outra parte de sua biografia. Durante dois meses, viveu do mesmo modo, no mais completo desconhecimento dos fatos, dos dados, do passado e dos afetos mais próximos. Largou o emprego e passou a usar seu tempo para redescobrir, em fotografias e conversas, um pouco da própria trajetória.

A história do homem que acordou sem memória foi notícia estes dias, ele, o romance com a mulher por quem se apaixonou, esqueceu e se apaixonou de novo, o diário em que anotava compulsivamente as coisas para o caso de acordar outra vez sem nada de que pudesse lembrar, a recuperação, o novo esquecimento, um sumiço que ninguém explica e outra vez o reencontro, depois de passar nove horas desaparecido e andar cerca de 70 quilômetros.

Com Aurelien Hayman acontece justo o oposto. Todas as roupas que usou, os amigos que encontrou, as comidas que comeu, as canções que ouviu e exatamente quando estão intactos entre as lembranças dele. Em 1º de outubro de 2006, por exemplo, o tempo estava nublado, tocava Killers, faltou luz durante um par de horas, a camisa era azul. Portador de uma doença rara conhecida como hipertimesia ou síndrome da memória autobiográfica superdesenvolvida, Hayman enxerga uma sequência de imagens diante de qualquer data, como se, nas palavras dele, estivesse acessando rapidamente e de maneira natural uma pasta arquivada dentro do cérebro.

Os médicos dizem que há apenas 20 pacientes no mundo com hipertimesia e todos pensam no passado o tempo todo. Apesar da habilidade incomum de anotar detalhes de dias, meses e anos anteriores, os portadores da síndrome da memória autobiográfica superdesenvolvida não são bons em recordar para que servem as chaves do chaveiro, porque dia 2 de novembro é feriado ou qualquer palavra do poema sobre o quintal em que a gente brincou ser maior do que a cidade, informação que a gente só fica sabendo depois de grande porque, depois de grande, a gente descobre que o tamanho das coisas deve ser medido pela intimidade que temos com elas.

[Há de ser como acontece com o amor].

Moacyr Scliar escreveu certa vez a saga de um sujeito que, como eu e você e quase todo mundo, tinha uma recordação que doía e queria apagar – um antigo amor, parece, que achava que podia ser curado pela ciência. No laboratório, fez um trato com o pesquisador que o recebeu com um sorriso afável: queria sigilo sobre a lembrança que queria esquecer. O pesquisador concordou e, num apertar de botão, acabou com ela. Despediram-se e ele foi embora, levando no lugar da ex a certeza de que, dali em diante, a vida seria diferente, de que se divertiria mais, conheceria novas mulheres, aquela mania. Por fim, se deu conta de que outra coisa incomodava. Quais cenas haviam sido apagadas de seu cérebro? Queria saber o que tinha esquecido. Queria a verdade, por amarga que fosse. Procurou o doutor. O coitado estava morto, de acidente, enterrado com o passado do outro, que era doído, mas inevitável para dar algum sentido aos dias atuais.

distâncias e sabores

Faz uns seis anos. Dois colegas chegaram à conclusão que, conforme os anos passam, nossas papilas gustativas perdem a sensibilidade para o doce e aguçam a simpatia por sabores mais suaves. Eu não sabia, e ainda não, se a ciência comprova a tese, mas notei, com o passar dos anos, que de fato cansei [um pouco, menos do chocolate] do excesso de açúcar e passei a prestar mais atenção aos ingredientes mais leves e ao gosto dos menores detalhes.

Suavidade faz bem, sorrir ao invés do contrário, deixar a cabeça, os amores e o nariz livres de restrições, manter a alma longe dos pesos e a mente sem apegos, deixar o espírito calmo até diante dos dias mais difíceis, até diante das noites mais conturbadas, apesar das perdas, das ausências, das distâncias. Suavidade é um pouco como aquela canção sobre folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos e dos receios, esquecer a data, perder a conta, aceitar a dor e, apesar de um mal tamanho, alegrar o coração.

[Falar com Deus também faz bem, dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido pela estrada que, ao findar, vai dar em nada, nada, nada, nada, nada… do que pensava encontrar].

As pequenas coisas igualmente enchem a vida de festa. Sair cedo do trabalho pra ver o mundo com o dia ainda claro enche a vida de festa, pedalar e na volta comprar pão caseiro do moço da bicicleta, desafinar debaixo do chuveiro, ver a lua da varanda. Tomar sorvete de cereja com cobertura de Nutella enche a vida de festa, exatamente como os amigos que aceitam as nossas mudanças, entendem as nossas dores, sabem ouvir de verdade e, com isso, ajudam a levar um pouco da dor irremediável de perder as pessoas, as coisas e o rumo, e também celebram com a gente, com motivo ou nem tanto.

Certas distâncias, ao contrário, embrulham o estômago. Espaço, explica o físico meio poeta, é o que separa as coisas, uma invenção para definir distâncias entre dois ou mais pontos ou entre dois ou mais objetos. Sem ele, estaríamos todos, gente e objetos, raivas e afetos, saudades e perspectivas, embolados no mesmo lugar. Vazios, por sua vez, são os lugares livres de gente e objetos, raivas e afetos, saudades e perspectivas.

Estar perto é justo o oposto, segurança, calor, gargalhada, confiança, madrugada, descoberta, dançar e as canções, a fé em Santa Rita ou então a religião particular do mestre Luis Fernando Veríssimo, devotado a pastéis, boas livrarias e ao deus do oboé, que, além de ser um instrumento divino, é o que afina todos os outros. Serve também a crença do artista que entrevistei outro dia: seus deuses são Chico Buarque, Milton Nascimento e Bezerra da Silva, ou então o horizonte, que ele contou que olhava insistentemente desde pequeno, para descobrir o que havia depois.

Foi dele, aliás, a ideia de fazer uma moqueca baiana para dois paulistas que vivem no Espírito Santo. O peixe servido com tomate, coentro, leite de coco, azeite de dendê e conversa de primeira estava mais delicado do que imaginamos que estivesse. Lembrava, e muito, a receita dos capixabas, feita em panela de barro com a técnica que, pelo que consta, determina a feitura da moqueca original: balançar de vez em quando com o auxílio de um pano grosso para que as postas não agarrem no fundo, sem mexer.

De sobremesa, havia mousse de limão, uma deliciosa contradição feita de doce e um toque de azedo, como as boas obras de arte e a maioria dos amores. Certas distâncias, pensando bem, têm algo de bom, ajudam a entender que, em certos momentos, a gente precisa suavizar um pouco para não perder a festa, a segurança, o calor, a confiança, os passos de dança, as canções e a fé.