na estrada nº 2

Daquela vez eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisava pensar a distância, o livro que queria acabar de ler, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância e a velha crença no poder transformador de uma viagem, até as mais curtas e menos surpreendentes. Imaginava que talvez fosse melhor não voltar, trocar de hábitos, de endereço, de quase tudo, porque era como se o escritor de terno, gravata e olhos distantes estivesse certo quando determinou que o Brasil é uma república federativa cheia de árvores e pessoas dizendo adeus.

Desta vez havia o mesmo sol, a mesma alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada, algum tempo livre e a mesma velha crença no poder transformador de uma viagem, até as mais curtas e menos surpreendentes. Havia canções e boa companhia, a vontade de clarear as ideias e respirar outros ares, fortalecer os laços e descansar a cabeça, a disposição de acertar o que ainda estava errado, a necessidade de aliviar o peso sobre os ombros e de preferência pegar um bronze. Sabia que viajar é ótimo, mas estar outra vez em casa é melhor ainda.

A leitura era também outra, a pequena história do cronista e seus dezesseis personagens que incluíam quatro automóveis, uma charrete, três diplomatas, dois jornalistas, um capitão-tenente da Marinha, um tenente-coronel da Força Pública, um empresário do cassino, um prefeito, uma senhora loura e três morenas, dois oficiais de gabinete, uma criança de colo e outra de fita cor-de-rosa com sua boneca. [Mas todos sentiam, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública , nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão].

Ir pede um pouco de desprendimento, pressupõe estar longe de rotas conhecidas, sugere referências passageiras que não explicam nem escolhas nem consequências. Ir estimula a paciência diante das demoras, a calma diante das diferenças, outro tempo, outro olhar. Ir incentiva o humor diante dos imprevistos, exercita o deslumbre diante das novidades, faz esquecer o medo de doenças imaginárias, da dor de cabeça do dia seguinte, da gangorra, da Lei Seca, do dinheiro e sua falta, das ausências que não se contam, da gordura abdominal, do desemprego, da descrença, das noites de domingo, da indiferença, dos adeuses, de quase tudo.

Estar de volta tem outras cores, boas igual, os discos displicentes à espera das madrugadas, as madrugadas em si e os silêncios em que a gente exalta, abraça, investe, porque são de fato ótimos investimentos. Estar de volta é aquela coisa: desfazer as malas, lavar as roupas, varrer, espanar, ajeitar, remexer, rodopiar, inverter, derramar Pinho Sol, água sanitária, detergente, lustra-móveis e desapego. Estar de volta são as plantas na varanda e o verde difuso delas à sombra do Mestre Álvaro. Estar de volta é aquela coisa: comprar frutas amanhã e outros quitutes para o café da manhã, encher o pneu da bicicleta, economizar dinheiro, tempo e expectativas, brigar apenas pelo que vale a pena [quase nada] e depois, exatamente como na canção, refazer a refazenda toda.

acima de tudo pairava o divino lombo de porco

Almoço Mineiro
Por Rubem Braga, setembro de 1934

Éramos dezesseis, incluindo quatro automóveis, uma charrete, três diplomatas, dois jornalistas, um capitão-tenente da Marinha, um tenente-coronel da Força Pública, um empresário do cassino, um prefeito, uma senhora loura e três morenas, dois oficiais de gabinete, uma criança de colo e outra de fita cor-de-rosa que se fazia acompanhar de uma boneca. Falamos de vários assuntos inconfessáveis. Depois de alguns minutos de debates ficou assentado que Poços de Caldas é uma linda cidade. Também se deliberou, depois de ouvidos vários oradores, que estava um dia muito bonito. A palestra foi decaindo então, para assuntos muitos escabrosos: discutiu-se até política. Depois que uma senhora paulista e outra carioca trocaram idéias a respeito do separatismo, um cavalheiro ergueu um brinde ao Brasil. Logo se levantaram outros, que, infelizmente, não nos foi possível anotar, em vista de estarmos situados na extremidade da mesa. Pelo entusiasmo reinante supomos que foram brindados o soldado desconhecido, as tardes de outono, as flores dos vergéis, os proletários armênios e as pessoas presentes. O certo é que um preto fazia funcionar a sua harmônica, ou talvez a sua concertina, com bastante sentimento. Seu Nhonhô cantou ao violão com a pureza e a operosidade inerentes a um velho funcionário municipal.

Mas nós todos sentíamos, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública, nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável. É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.

Havia arroz sem colorau, couve e pão. Sobre a toalha havia também copos cheios de vinho ou de água mineral, sorrisos, manchas de sol e a frescura do vento que sussurrava nas árvores. E no fim de tudo houve fotografias. É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora lingüiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo ouro. Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes da saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve — do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas. Era o encanto de Minas.