da arte de ouvir

Primeiro pensei em dizer sobre aquela noite no teatro, vestido leve, companhia boa, no fim um prêmio inesperado e depois caipirinha de tangerina [delícia] e o sofá da sala, vendo o teto e ouvindo as canções que estavam ao alcance, todas, uma depois da outra, até o fim da pilha. Daria pra lembrar dos atores e respectivos personagens, dos diálogos e respectivas pausas, do cheiro bom que havia perto, da ideia certeira segundo a qual é a capacidade de ouvir, não a de falar, o que distingue os seres humanos dos outros animais.

Há que se deixar apagar e se concentrar no outro, a moça defendia, eliminar pensamentos, vaidades e vontades e então escutar, verdadeiramente, as palavras alheias, uma arte rara nestes tempos de tanta opinião, tanta exposição, tanto comigo aconteceu pior, e eu então? que tenho uma história melhor ainda, faz a sua parecer fichinha, cada um esperando a vez de falar, ou nem esperando, atropelando mesmo.

Depois pensei em dizer a respeito do homem sábio de nariz afiado, sobrancelhas grossas e uns poucos cabelos brancos ao redor, não exatamente a respeito dele nem de seus cabelos poucos e brancos, mas da tese segundo a qual, se no princípio era o verbo, antes ainda havia o silêncio. Daria pra explicar sobre a audição ser, na opinião dele, o sentido mais importante para a aprendizagem do amor e do viver junto, sobre como só podemos ouvir de fato quando silenciamos os ruídos interiores, sobre como é preciso parar de tagarelar para entender a verdade dos outros.

Quem fala muito não ouve, o professor analisava, emendando a lição dos poetas e dos orientais, que – menos as exceções – dizem não aos exageros verbais e sim ao modo quieto de ver o mundo, silêncio, pausa, suavidade, desapego, coisas assim, incomuns nestes dias de tanto cutuque, tanto radicalismo, tanta crítica, cada um tentando preservar o seu pedaço e pronto acabou.

Daí pensei em dizer, uma vez mais, sobre os dogons, tribo de camponeses, artistas e feiticeiros africanos, conhecedores da astronomia e do início de todas as coisas que acreditam ter nascido com uma quantidade determinada de palavras na barriga. Durante a vida, eles gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, o sujeito morre.

O tema podia também ser Tamina, a camareira de quem todos gostavam, porque ouvia sem interromper o que contavam, exatamente como a protagonista daquela noite no teatro, vestido leve, companhia boa, um prêmio inesperado no fim de tudo e depois caipirinha de tangerina e o sofá da sala, vendo o teto e ouvindo as canções, uma depois da outra, até o fim das pilhas. Tamina, que ganhou do escritor um nome que nenhuma mulher jamais teve, alimentava uma vontade terrível de partir para um lugar onde as coisas fossem leves, onde não houvesse remorsos, culpa ou pressão. Passava horas sentada no bar, e quase sempre havia alguém que desejasse conversar com ela.

Sua lição era esta, vai ver, além do riso e do esquecimento do título do livro que guarda sua história: manter a alma livre de pesos e a mente longe dos apegos, deixar cabeça e espírito suaves até diante dos dias mais difíceis, até diante das noites mais conturbadas, apesar das perdas, das ausências, das distâncias. Ou então, um pouco depois do terremoto, fazer silêncio, aquele, sabe?, que a gente às vezes esquece como é bom e devia exercitar com mais frequência.

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