o que faltou dizer outro dia

Outro dia faltou dizer que amigos de verdade e sorvete de cereja com calda de Nutella, do mesmo modo que os escritos de Rubem Braga, Drummond, Carmélia, Clarice às vezes e García Márquez quando as lembranças permitiam [agora dizem que não mais], deviam ser tombados como patrimônio da humanidade. Eles e Maria Bethania recitando os poemas da sua vida, gim com água tônica, aquele abraço que suaviza tudo, o significado da primeira geladeira, os sentimentos de certos poetas, os primórdios do samba no bar da esquina, o sorriso dos amores e as noites em que não existe mais nada deviam ser celebrados e protegidos como as construções valiosas que a lei cerca e proíbe de arranhões e abalos de qualquer tipo.

Foi isso que faltou dizer outro dia, que as ideias que fazem a gente dançar nas noites quietas de dentro de casa podiam igualmente ganhar o selo de bem tombado, e também a máxima que lembrei no momento exato em que o chuveiro queimou: “Não há nenhum problema no mundo que não possa ser curado com um banho quente, um copo de uísque e um livro de preces”.

[Faz sentido].

Banho quente podia ser tombado como patrimônio da humanidade, protegido para todo o sempre, como Dindi e as crônicas de Gabito, Rubem e Drummond, as canções, calda de Nutella e sorvete de cereja, gim com água tônica, o sorriso dos amores verdadeiros, aquele abraço, as histórias bonitas e a delicadeza do mundo, quando há, embora nem sempre haja.

Outro dia, porque acabou o espaço, faltou dizer essas e outras coisas a respeito da sugestão do cronista Joaquim Ferreira dos Santos aqui reproduzida com o objetivo justo muito justo justíssimo de preservar o mais imaterial dos estilos literários e, por consequência, o passarinho que não tem fábricas como o conde, mas sabe cantar e voar; os pratos sem cheiro verde; a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente [não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa e nem chateia a gente]; a moça daquela noite em que chovia, não a postes, mas a bules de chá.

Foi isso que faltou dizer, isso e que o cronista propunha tombar não apenas a crônica, mas ainda o primeiro gole da cachaça dado ao santo, o grito do verdureiro alertando que freguesa bonita não paga, mas também não leva e o pôr do sol na praia do Arpoador e em breve quem sabe o tapioqueiro da Rua Paissandu. Sua sugestão aqui reproduzida com o objetivo justo muito justo justíssimo de celebrar e proteger o mais imaterial dos estilos literários incluía transformar em patrimônio imaterial da humanidade o torcedor que fica de costas para o campo na hora em que seu time vai bater o pênalti, a toalha de São Jorge que encapa o banco do motorista [salve], o X-Tudo, a pizza e o biscoito de polvilho, o miudinho dançado por Paulinho da Viola, a feijoada do sábado acompanhada de caipirinha de lima com cachaça, a velha cantada “eu te conheço de algum lugar” e o apito da fábrica de tecidos.

“… Mas você não sabe que, enquanto você faz pano, faço junto do piano estes versos pra você”.

Certas canções, como os textos dos mestres, o pôr do sol, as torcidas, a fé e a pizza, os amigos verdadeiros, sorvete de cereja com calda de Nutella, Maria Bethania recitando os poemas da sua vida, gim com água tônica, aquele abraço, o significado da primeira geladeira, os primórdios do samba no bar da esquina e o sorriso dos amores verdadeiros, deviam ser tombadas como patrimônio da humanidade, cercadas como as construções mais valiosas e protegidas contra qualquer tipo de abalo para todo o sempre amém.

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