clarice, as preces e os cães

Clarice Lispector, como se sabe, não era exatamente uma pessoa doce, nem a leveza era o seu forte. Mas reza a lenda que um dia ela se virou para um cachorro um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

O vira-lata havia chegado à casa dos Valente quando os dois filhos da escritora – que, como se sabe, não era exatamente uma pessoa alegre, nem a simplicidade era o seu forte – já estavam crescidos. Sua desobediência crônica, seu gosto pelo malte e pela cafeína e os hábitos de engolir as bitucas dos convidados e deixar sua marca no tapete da sala ficaram famosos em livros e em entrevistas.

Em uma delas, Clarice explicou, daquele jeito dela de explicar, entre triste e distante, arrumou o cão porque precisava amar uma criatura viva que lhe fizesse companhia. “Ulisses é um mestiço, o que garante uma vida mais longa e uma inteligência maior. É um cachorro muito especial”, afirmou, na ocasião. Já em uma de suas histórias infantis, o narrador era um cachorro de nome Ulisses que se orgulhava de “não obedecer sempre, gostar de fazer o que quer e fazer xixi na sala de Clarice”.

Ulisses era, segundo consta e apesar das desobediências, uma boa companhia para a complicada Clarice. Cachorros, afinal, são menos complexos que gente, bem capazes, portanto, de ficar apenas sendo, obedecer sem vaidade, seguir sem orgulho, respirar repetidas vezes, viver daquele modo levinho de que são feitos as tortas que escapam da receita, determinados encontros, os sábados de sol e as tardes de domingo.

Cachorros parecem saber, profundamente, mesmo que não pensem, a lição do livro açucarado de duas primaveras atrás, segundo o qual não há nenhum problema no mundo que não possa ser curado com um banho quente, um copo de uísque – será que é por isso que dizem que o uísque é o cão engarrafado? – e um livro de preces.

[Amém].

Clarice, como se sabe, não era exatamente uma pessoa centrada, nem o otimismo era o seu forte. Um dia escreveu a um amigo: “As pessoas daqui me olham como se eu tivessse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente”. Ao marido contou que queria ouvir bobagens que a fizessem esquecer a ruindade do mundo.

Para uma irmã, confessou que achava o mundo todo ligeiramente chato e para outra ironizou: “Conheci várias pessoas simpáticas. Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso, embora sem jamais fazer maldades. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar gentil e delicado. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil”.

Com Ulisses, ao que parece, a convivência era mais fácil. Cachorros, afinal, são mais simples e quase sempre mais dispostos a absorver o amor dos outros sem esperar grandes recompensas, brincar sem pressa, atender uma dezena de vezes a mesma ordem, levar a vida que Deus manda sem pergunta nem decepção. Cachorros, nos dias que que o mundo complica, fazem a Clarice estar coberta de razão quando se virou para um bicho um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

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