o evangelho segundo gil


Um dia aprendi com ele que até a festa podia ser motor da fé. Àquela altura, era preciso acreditar em alguma coisa, nem que fosse no tempo ou então nos encontros, na Física, na metafísica ou nas canções, o Rei cantando daquele modo bonito dele, a moça chorando enquanto era um era dois era cem era o mundo chegando e ninguém e as Bachianas Brasileiras, principalmente a número 5. Era preciso acreditar nas soluções escondidas atrás de uma noite de sono, na opção de rir de tudo quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, investir na leveza e no movimento, na beleza do improviso, na necessidade do acaso e no desapego.

Antes ainda, uns cinco anos talvez, aprendi com ele que melhor do que ter poder era ter potência, capacidade de movimento, de ação e criação, memória, entendimento e a vontade de determinar mudanças num bloco de mármore ou na rota dos sentimentos. Poder, ao contrário, vinha da Política, não da Física, domínio ou controle, autoridade, apetites descontrolados e a certeza, como consequência, de que nada satisfaz qualquer tipo de descontrole, nem café, nem chocolate, nem planos ou juras de amor, nem cobertor e almofada, nem abraço ou promessas, nem mais dinheiro ou mais poder, nada.

Melhor do que ter poder era, como ainda é, ter potência, num mundo em que um, não a outra, determina a maior parte das relações, e pouco importa o que realmente importa: um café, um sorriso, uma descoberta, uma resposta, um convite, brigadeiro de colher, cinema, boteco, a madrugada sem despertador no dia seguinte, sonho, Paris, Nova York, livro, cheiro de amêndoa no cabelo, um encontro, Nutella, esperança, samba, sereno, caipirinha de melancia, bicicleta, uma semana sem dores na coluna, amigos de verdade, violão e cantar desafinado, os jornais do final de semana espalhados pelo chão, aquela presença silenciosa, suave e distante e a horta vigorosa feita de manjericão, sálvia, hortelã, cidreira e nada de coentro.

[Eca].

Gilberto Gil não faz ideia, mas aprendi com suas canções – e com o tempo, transcorrendo – que as coisas da vida são de alguma forma importantes, mesmo as ruins, porque ensinam algo que seja, reforçam a casca, contrariam as idealizações, reduzem as expectativas. Acreditar nas coisas da vida, ele diz, nestes dias em que completou 70 anos, é o que há, nas boas e vai ver nas outras:

– Tenho fé na vida. Ela está aí, nos cerca. É a única coisa que a gente tem para acreditar propriamente.

Aprendi com Gil que era preciso acreditar em alguma coisa àquela altura, nem que fosse na madrugada silenciosa, no modo silencioso que tem todo o encanto do mundo, o coração todo tomado de uma alegria consistente, a diversão toda, o ritual inteiro. Era preciso ter fé, e podia ser fé na festa, forró, xote, xaxado e baião postos a serviço do músico de pele preta, fala mansa e sorriso largo que compartilha referências, afetos, criações e opiniões quando os outros preferem guardá-los.

Aprendi com Gil – e com o tempo, transformando – a andar com fé que a fé não costuma faiá, respirar ou então rezar aquela reza sincera e funda, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários, serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém.

Aprendi com ele que mistérios sempre há de pintar por aí.

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