pelo tombamento da crônica

A panela de barro feita logo ali foi o primeiro dos bens imateriais tombados como patrimônio da humanidade. Depois vieram o queijo de Minas, o samba de roda do Recôncavo baiano, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o frevo de Pernambuco, a cachaça, e em breve quem sabe também o tapioqueiro da Rua Paissandu. Agora, Joaquim Ferreira dos Santos, cronista e colunista do lindo Rio de Janeiro de meu Deus, sugere o tombamento do mais imaterial dos estilos literários, o gênero, número e grau de Rubem Braga, algum Drummond, Carmélia, Clarice às vezes, García Márquez quando as lembranças permitiam [agora não mais], Fernando Sabino nas madrugadas e os que mais nos aventuramos a seguir os mestres neste exercício sobre o tempo, as boas histórias e a delicadeza das coisas.

Joaquim Ferreira dos Santos defende que a crônica, levinha como as tortas que escapam da receita, determinados encontros, os sábados de sol e o modo de vida dos buldogues franceses, seja declarada patrimônio da humanidade. Deste modo, estariam livres de qualquer estrago, preservados e valorizados para todo o sempre, o passarinho que, ao contrário do conde, não tem fábricas, mas sabe cantar e voar; a moça daquela noite em que chovia, não a postes, mas a bules de chá; o homem que busca os óculos pela casa inteira sem notar que repousavam em seu rosto e achando que, de tão bem que estava vendo, não precisava mais de óculos.

Estariam igualmente livres de qualquer estrago a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente [não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa e nem chateia a gente]; as mulheres que passam, os estudantes que passam, as comerciárias que passam, os malandros que passam e todos os outros que passam rumo à Praça Costa Pereira.

Aquela deliciosa defesa por pratos sem cheiro verde também estaria preservada e valorizada para todo o sempre, assim como a aventura futurista do garoto que não sabia o que era dormir – e o avô tentava explicar que, quando chegava a noite, as pessoas tiravam a roupa, vestiam uma coisa chamada pijama, olhavam um pouco de televisão e às vezes sonhavam. Com o tombamento da crônica, Dindi estaria livre de qualquer estrago, preservada e valorizada para todo o sempre.

Amém.

E tem mais: a lista com sugestões de bens imateriais que deviam ser tombados como patrimônio da humanidade não se resume ao gênero de Rubem Braga, algum Drummond, Carmélia, Clarice às vezes, García Márquez quando as lembranças permitiam, Fernando Sabino e os discípulos aventureiros. Ela contempla temas caros a cronistas de todo o tipo, como o aviso de “deixa solto, doutor” doix flanelinhaix cariocaix, o primeiro gole da cachaça para o santo, o grito do verdureiro para a freguesa bonita que não paga, mas também não leva e o pôr do sol do Arpoador. Inclui o torcedor que fica de costas na hora do pênalti, a prancheta de Joel Silveira [neste caso, há controvérsias], a toalha de São Jorge que encapa o banco do motorista [salve], X-Tudo, pizza e rosca de polvilho e o apito da fábrica de tecidos.

“Mas você não sabe que, enquanto você faz pano,
faço junto do piano estes versos pra você…”

Certas canções, como os escritos dos mestres, o pôr do sol, as torcidas, a fé e a pizza, também deviam ser tombadas, elas e sorvete de cereja com calda de Nutella, Maria Bethania recitando poemas, o sorriso dos amores verdadeiros, gim com água tônica e uma dúzia de outros bens que quem sabe na próxima crônica.

Anúncios

clarice, as preces e os cães

Clarice Lispector, como se sabe, não era exatamente uma pessoa doce, nem a leveza era o seu forte. Mas reza a lenda que um dia ela se virou para um cachorro um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

O vira-lata havia chegado à casa dos Valente quando os dois filhos da escritora – que, como se sabe, não era exatamente uma pessoa alegre, nem a simplicidade era o seu forte – já estavam crescidos. Sua desobediência crônica, seu gosto pelo malte e pela cafeína e os hábitos de engolir as bitucas dos convidados e deixar sua marca no tapete da sala ficaram famosos em livros e em entrevistas.

Em uma delas, Clarice explicou, daquele jeito dela de explicar, entre triste e distante, arrumou o cão porque precisava amar uma criatura viva que lhe fizesse companhia. “Ulisses é um mestiço, o que garante uma vida mais longa e uma inteligência maior. É um cachorro muito especial”, afirmou, na ocasião. Já em uma de suas histórias infantis, o narrador era um cachorro de nome Ulisses que se orgulhava de “não obedecer sempre, gostar de fazer o que quer e fazer xixi na sala de Clarice”.

Ulisses era, segundo consta e apesar das desobediências, uma boa companhia para a complicada Clarice. Cachorros, afinal, são menos complexos que gente, bem capazes, portanto, de ficar apenas sendo, obedecer sem vaidade, seguir sem orgulho, respirar repetidas vezes, viver daquele modo levinho de que são feitos as tortas que escapam da receita, determinados encontros, os sábados de sol e as tardes de domingo.

Cachorros parecem saber, profundamente, mesmo que não pensem, a lição do livro açucarado de duas primaveras atrás, segundo o qual não há nenhum problema no mundo que não possa ser curado com um banho quente, um copo de uísque – será que é por isso que dizem que o uísque é o cão engarrafado? – e um livro de preces.

[Amém].

Clarice, como se sabe, não era exatamente uma pessoa centrada, nem o otimismo era o seu forte. Um dia escreveu a um amigo: “As pessoas daqui me olham como se eu tivessse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente”. Ao marido contou que queria ouvir bobagens que a fizessem esquecer a ruindade do mundo.

Para uma irmã, confessou que achava o mundo todo ligeiramente chato e para outra ironizou: “Conheci várias pessoas simpáticas. Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso, embora sem jamais fazer maldades. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar gentil e delicado. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil”.

Com Ulisses, ao que parece, a convivência era mais fácil. Cachorros, afinal, são mais simples e quase sempre mais dispostos a absorver o amor dos outros sem esperar grandes recompensas, brincar sem pressa, atender uma dezena de vezes a mesma ordem, levar a vida que Deus manda sem pergunta nem decepção. Cachorros, nos dias que que o mundo complica, fazem a Clarice estar coberta de razão quando se virou para um bicho um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

o evangelho segundo gil


Um dia aprendi com ele que até a festa podia ser motor da fé. Àquela altura, era preciso acreditar em alguma coisa, nem que fosse no tempo ou então nos encontros, na Física, na metafísica ou nas canções, o Rei cantando daquele modo bonito dele, a moça chorando enquanto era um era dois era cem era o mundo chegando e ninguém e as Bachianas Brasileiras, principalmente a número 5. Era preciso acreditar nas soluções escondidas atrás de uma noite de sono, na opção de rir de tudo quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, investir na leveza e no movimento, na beleza do improviso, na necessidade do acaso e no desapego.

Antes ainda, uns cinco anos talvez, aprendi com ele que melhor do que ter poder era ter potência, capacidade de movimento, de ação e criação, memória, entendimento e a vontade de determinar mudanças num bloco de mármore ou na rota dos sentimentos. Poder, ao contrário, vinha da Política, não da Física, domínio ou controle, autoridade, apetites descontrolados e a certeza, como consequência, de que nada satisfaz qualquer tipo de descontrole, nem café, nem chocolate, nem planos ou juras de amor, nem cobertor e almofada, nem abraço ou promessas, nem mais dinheiro ou mais poder, nada.

Melhor do que ter poder era, como ainda é, ter potência, num mundo em que um, não a outra, determina a maior parte das relações, e pouco importa o que realmente importa: um café, um sorriso, uma descoberta, uma resposta, um convite, brigadeiro de colher, cinema, boteco, a madrugada sem despertador no dia seguinte, sonho, Paris, Nova York, livro, cheiro de amêndoa no cabelo, um encontro, Nutella, esperança, samba, sereno, caipirinha de melancia, bicicleta, uma semana sem dores na coluna, amigos de verdade, violão e cantar desafinado, os jornais do final de semana espalhados pelo chão, aquela presença silenciosa, suave e distante e a horta vigorosa feita de manjericão, sálvia, hortelã, cidreira e nada de coentro.

[Eca].

Gilberto Gil não faz ideia, mas aprendi com suas canções – e com o tempo, transcorrendo – que as coisas da vida são de alguma forma importantes, mesmo as ruins, porque ensinam algo que seja, reforçam a casca, contrariam as idealizações, reduzem as expectativas. Acreditar nas coisas da vida, ele diz, nestes dias em que completou 70 anos, é o que há, nas boas e vai ver nas outras:

– Tenho fé na vida. Ela está aí, nos cerca. É a única coisa que a gente tem para acreditar propriamente.

Aprendi com Gil que era preciso acreditar em alguma coisa àquela altura, nem que fosse na madrugada silenciosa, no modo silencioso que tem todo o encanto do mundo, o coração todo tomado de uma alegria consistente, a diversão toda, o ritual inteiro. Era preciso ter fé, e podia ser fé na festa, forró, xote, xaxado e baião postos a serviço do músico de pele preta, fala mansa e sorriso largo que compartilha referências, afetos, criações e opiniões quando os outros preferem guardá-los.

Aprendi com Gil – e com o tempo, transformando – a andar com fé que a fé não costuma faiá, respirar ou então rezar aquela reza sincera e funda, Santa Rita, Santo Expedito, Nossa Senhora da Penha, Ana ou Aparecida, São Bento de Núrsia, Santo Antônio ou então direto com o Homem, sem intermediários, serenidade, saúde, sabedoria, um caminho bom para os queridos, uma cura ou um milagrezinho, sossego, Senhor tirai as minhocas desta cabeça amém.

Aprendi com ele que mistérios sempre há de pintar por aí.