ano novo, mesmo que seja junho

Dizem que há um ritual infalível na passagem do ano em Gana, um país na África ocidental a respeito do qual a maioria de nós faz pouca ideia além da geografia básica e dos jogos de futebol. Você deve cavar um buraco no chão, colocar a boca e contar o que se passou de ruim nos últimos 365 [às vezes 366] dias. Depois, deve “cobrir” as palavras com terra e discorrer suavemente sobre as coisas boas que deseja para janeiro, fevereiro, março e todo o resto, durante o expediente e nos feriados santos, festas profanas e finais de semana de folga, manhãs, noites e também as madrugadas, para si mesmo e para os queridos. A seguir, você deve jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco [só um pouco]. Terminada a liturgia, você está pronto para recomeçar.

Parece bom.

Embora seja junho e Gana seja um país a respeito do qual a maioria de nós faz pouca ideia além da geografia básica e dos jogos de futebol, contar o que se passou de ruim parece bom, discorrer suavemente sobre as coisas boas que espera e enterrar as dores antes de seguir rumo às tarefas e algum descanso, aos afetos, aos encontros, reencontros e desencontros, entregar um projeto, terminar um livro, fazer o jantar, ouvir o silêncio das madrugadas, limpar as estantes, jogar conversa fora, escolher a canção certa pra cada ocasião.

Parece bom, embora seja junho e Gana etc e tal, cavar um buraco e jogar os sapos dentro antes de seguir adiante, pagar mais algumas contas, firmar um pouco ainda os músculos, rezar outras vezes mais ao grandioso e bom Deus para que torne as presenças constantes e as ausências amenas, perdoe os deslizes, desconte as faltas, alivie os excessos, mantenha a paz e instaure o equilíbrio de uma vez por todas. Amém.

Em Gana, tradição é coisa séria. Uma simples cadeira, por exemplo, daquelas que a gente usa pra descansar, apoiar, enfeitar ou acumular as pilhas à espera de arrumação, significa poder. No século 19, apenas o chefe da tribo podia se sentar. Os enterros também são extravagantes: noite adentro, drinques liberados, mestre de cerimônia, DJ e uma vaquinha para levantar fundos para a família do morto. A economia dá pro gasto – o início da produção de petróleo fez os lucros crescerem e nos últimos seis anos há 80% mais carros e motos circulando nas ruas. Na política, a estabilidade contrasta com os vizinhos de um continente frequentemente marcado pela corrupção.

Também é por ali, um pouco mais pro Norte, acho, que vivem os dogons, aquela tribo de camponeses, artistas e feiticeiros que enfrentam com sabedoria temperaturas de até 60 graus centígrados, conhecem muitíssimo de astronomia e do início de todas as coisas e acreditam ter nascido com uma quantidade limitada de palavras dentro da barriga. Durante a vida, eles gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, o sujeito simplesmente morre. Parece bom, bom que nem fazer como os ganenses, cavar um buraco no chão, contar o que houve de ruim, cobrir as más lembranças com terra e, terminada a liturgia, simplesmente estar pronto para recomeçar, mesmo que seja junho.

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