a memória de gabo


Um amigo próximo contou numa entrevista que Gabriel García Márquez está perdendo a memória. Disse que Gabo não fala mais ao telefone porque não reconhece seus interlocutores pela voz, que faz perguntas iguais repetidas vezes e que, quando não sabe com quem conversa, despeja um “o que tem feito?” ou um “quando volta de Paris?”, para tentar reencontrar o rumo e as lembranças que ficaram num lugar que vai saber. Coisas mais antigas, de acordo com o amigo, continuam intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores de seu tempo.

Estão lá – devem estar, como não? – o amor desde a infância até hoje e a velha residência dos avós em Aracataca repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra, o jornalismo e o avô que tirou o neto do mundo feminino de premonições em que vivia e o levou ao mundo masculino da política. Estão lá – devem estar, como não? – a professora esperançosa, a leiteira descrente que disse que aquela criança não vingava e a saga das estirpes condenadas a cem anos de solidão, os personagens e as aventuras que ele viveu, ou vai ver inventou, há 30, 40, 50 anos, frescos como os legumes da feira de quarta à noite, à disposição das conversas, das perguntas e da imaginação.

Gabo criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. [O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos].

Num autorretrato feito em 1966, contou que se tornou autor por causa da timidez: “Meu nome, senhor, é Gabriel García Márquez. Sinto muito: também não gosto do nome, porque é uma sequência de lugares-comuns cuja conexão nunca fui capaz de fazer. Nasci em Aracataca, Colômbia, há quarenta anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Peixes e minha esposa é Mercedes. Sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. As duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde criança: que meus amigos pudessem me amar mais”.

De lá para cá, talvez um pouco antes, adotou a estratégia de relatar versões diferentes de um mesmo fato para confundir seus ouvintes, flertou com diferentes lados do poder de um continente politicamente instável, alimentou relações quase tão contraditórias quanto seu guarda-roupa barroco. Bebeu óleo de fígado de bacalhau para fugir da tuberculose, comeu o pão que o diabo amassou antes de viver de seus livros, ganhou prêmios e admiradores, perdeu amigos e afetos e agora, segundo consta, simplesmente não lembra mais.

Gabo simplesmente não lembra mais, segundo consta, esqueceu, largou pra trás alguns rostos, algumas palavras, algumas vozes, quem sabe tristezas, quem sabe saudades, uma conversa com o filho mais velho, um encontro, as chegadas, as estadas e as partidas. Quem sabe exatamente qual parte?, se as melhores ou a ideia, defendida por ele mesmo durante tanto tempo, de que a vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda, para contar.

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ano novo, mesmo que seja junho

Dizem que há um ritual infalível na passagem do ano em Gana, um país na África ocidental a respeito do qual a maioria de nós faz pouca ideia além da geografia básica e dos jogos de futebol. Você deve cavar um buraco no chão, colocar a boca e contar o que se passou de ruim nos últimos 365 [às vezes 366] dias. Depois, deve “cobrir” as palavras com terra e discorrer suavemente sobre as coisas boas que deseja para janeiro, fevereiro, março e todo o resto, durante o expediente e nos feriados santos, festas profanas e finais de semana de folga, manhãs, noites e também as madrugadas, para si mesmo e para os queridos. A seguir, você deve jogar um pouco de vinho ou cachaça sobre a terra em homenagem aos ancestrais e, enfim, beber também um pouco [só um pouco]. Terminada a liturgia, você está pronto para recomeçar.

Parece bom.

Embora seja junho e Gana seja um país a respeito do qual a maioria de nós faz pouca ideia além da geografia básica e dos jogos de futebol, contar o que se passou de ruim parece bom, discorrer suavemente sobre as coisas boas que espera e enterrar as dores antes de seguir rumo às tarefas e algum descanso, aos afetos, aos encontros, reencontros e desencontros, entregar um projeto, terminar um livro, fazer o jantar, ouvir o silêncio das madrugadas, limpar as estantes, jogar conversa fora, escolher a canção certa pra cada ocasião.

Parece bom, embora seja junho e Gana etc e tal, cavar um buraco e jogar os sapos dentro antes de seguir adiante, pagar mais algumas contas, firmar um pouco ainda os músculos, rezar outras vezes mais ao grandioso e bom Deus para que torne as presenças constantes e as ausências amenas, perdoe os deslizes, desconte as faltas, alivie os excessos, mantenha a paz e instaure o equilíbrio de uma vez por todas. Amém.

Em Gana, tradição é coisa séria. Uma simples cadeira, por exemplo, daquelas que a gente usa pra descansar, apoiar, enfeitar ou acumular as pilhas à espera de arrumação, significa poder. No século 19, apenas o chefe da tribo podia se sentar. Os enterros também são extravagantes: noite adentro, drinques liberados, mestre de cerimônia, DJ e uma vaquinha para levantar fundos para a família do morto. A economia dá pro gasto – o início da produção de petróleo fez os lucros crescerem e nos últimos seis anos há 80% mais carros e motos circulando nas ruas. Na política, a estabilidade contrasta com os vizinhos de um continente frequentemente marcado pela corrupção.

Também é por ali, um pouco mais pro Norte, acho, que vivem os dogons, aquela tribo de camponeses, artistas e feiticeiros que enfrentam com sabedoria temperaturas de até 60 graus centígrados, conhecem muitíssimo de astronomia e do início de todas as coisas e acreditam ter nascido com uma quantidade limitada de palavras dentro da barriga. Durante a vida, eles gastam o verbo guardado dentro com os amores, os amigos, a oposição, os irmãos e os vizinhos. Um dia, quando o estoque acaba, o sujeito simplesmente morre. Parece bom, bom que nem fazer como os ganenses, cavar um buraco no chão, contar o que houve de ruim, cobrir as más lembranças com terra e, terminada a liturgia, simplesmente estar pronto para recomeçar, mesmo que seja junho.