scliar e o sentido da vida


Uma vez, Moacyr Scliar me disse que o primeiro item de sua lista de coisas pra fazer antes de morrer era descobrir o sentido da vida. Viajávamos para a capital secreta do mundo para participar de um debate sobre crônicas, seu fazer e as inspirações, há exatos dois anos. O clima estava frio e seco. A conversa era justo o oposto: amena, fresca, suave, sobre os livros que líamos e a política capixaba [gaúcho, ele queria saber quem mandava e quem obedecia, por assim dizer, no Espírito Santo], sobre canções e o movimento nos jornais [médico, adorava o burburinho das redações], sobre comida boa e algumas ausências, sobre as belezas de cair na estrada e o poema de Drummond.

“De repente você resolve fugir…”

Scliar era prático, objetivo, pragmático. Escrevia de modo profícuo, em qualquer lugar, até no aeroporto [sempre viajava com um computadorzinho a tiracolo], ancorado não apenas pelo domínio que tinha da língua, como também por um bem-vindo senso de organização. Diante da encomenda de uma crônica, artigo ou coluna, fazia sempre e somente duas perguntas:

1. Em quanto tempo?
2. De qual tamanho?

Também lia de modo dedicado [um dia depois de Cachoeiro, mandou um email com comentários generosos a respeito do meu livro, que havia lido na viagem de volta a Porto Alegre], e adorava Clarice, Guimarães, Kafka, João Cabral, Quintana, Shakespeare, Tchekhov, Graciliano, o conterrâneo Erico Verissimo, de novo Drummond. Dizia que o jornalismo e a medicina tinham algo em comum, que a entrevista é um diagnóstico de alguém, um evento ou então de um tempo, que um médico precisa de conhecimento para extrair uma conclusão da história que o paciente narra – às vezes não narra – do mesmo modo que o jornalista tem de ter técnica e sensibilidade para ouvir os entrevistados. Publicou mais de um livro para cada ano de vida [80 títulos, sete a mais que a idade] e não devia estar falando a sério quando determinou que queria em seu túmulo a frase “viveu bastante, mas não aprendeu muito”.

Ou será que estava?

Scliar morreu oito meses depois daquela tarde em que me disse que o primeiro item de sua lista de coisas pra fazer antes de morrer era descobrir o sentido da vida. Até hoje, não sei se cumpriu o que previa sua série de desejos para enquanto estivesse por aqui. Não sei se achou a caneta de estimação que buscava há alguns anos, se conseguiu tocar um instrumento, se decidiu uma partida de basquete com uma cesta de três ou uma enterrada estilo Michael Jordan [se bem que eu soube que, agora, bom mesmo é jogar como LeBron James]. Não sei se Scliar compreendeu os mistérios do corpo e o porquê das doenças, se lembrou de todos os nomes e rostos que conheceu, se aprendeu a sapatear.

Talvez tenha entendido a tempo o propósito do negócio todo, desvendado as respostas que poetas e físicos passam décadas buscando. Vai ver sossegou com a falta delas, deixou a procura por grandes significados pra lá e aceitou os menores, mas não menos importantes, concordando, mesmo sem saber, com aquela história de outro dia, lembra?, sobre filhos, árvores, livro, trabalho, amores, amigos, a fé ou as boas causas. Vai ver partiu sem saber o como o quando o onde e os motivos, sem saber que às vezes não tem sentido. Vai ver entendeu que não tinha e se foi satisfeito, exatamente como planejava.