da série leituras

A Entrevista e a Moça
Bernadette Lyra

A moça se espanta quando eu digo que gosto de gente. Sim. Eu gosto de gente. Não posso negar. Talvez eu esteja diante de uma idiota ou de otimista sem cura – é o que penso que moça pensa. Talvez. Mas a moça é educada. Se ela pensa, só pensa, não fala.

A moça está me entrevistando para uma revista. Fica olhando para mim com aqueles olhos cor de camurça e inteligentes, redondos de incredulidade. Como eu posso dizer que gosto de gente neste mundo tão cheio de maldade e ilusão? – penso que a moça pensa. E me dá vontade de explicar que Dorival Caymmi compôs essa música, “Saudades da Bahia”, em uma tarde do verão de 1947, sentado em um bar do Leblon, enquanto as melancolias o atacavam, como atacam todo e qualquer baiano que se vê fora de Salvador. Pelo menos é o que dizem os entendidos.

Bem, eu gosto de gente que não se chateia à toa e nem chateia a gente – eu falo para acalmar o espanto da moça e desfazer o clima. Sobretudo, gosto de gente que ri. Gente bem humorada. Gente que se assume com todas suas falhas, seus erros e acertos. Gente que expõe sem temor ou frescuras diante dos outros. Gente que beija e abraça, que acarinha, que expressa seus sentimentos.

Não gosto de gente que se acha, nem de gente muito séria que acredita que tudo que faz é importante e anda de cara feia para impor respeito, como se o ato de rir fosse uma coisa imbecil e merecedor da fogueira.

Em seu último livro “Os Filhos dos Dias”, Eduardo Galeano escreve que vivemos em um mundo inseguro. Muitos políticos e governantes se esmeram em criar um clima de histeria coletiva que os meios de comunicação reproduzem. Temos medo. Medo das pessoas, Esse senhor ou essa senhora que andam por aí, a teu lado, podem te enganar, roubar, sequestrar ou matar. A paranoia está a serviço de gente que destina metade de seus recursos a guerras e a matança de outras criaturas – lamenta o escritor.. Talvez seja essa a tal maldade e ilusão a que aquela mãe já se referia, na música de Caymmi, acima citada.

Sem dúvida é difícil vencer o medo que nos é enfiado pela goela abaixo. Principalmente quando vemos a violência diária exposta nos jornais, na internet, nos canais de televisão E verdade, também, que há horas em que é impossível deixar a seriedade de lado. Há momentos especiais, em que é preciso se compenetrar. Por exemplo, diante da dor de uma perda ou de uma separação. Mas, mesmo nesses momentos, tem quem julgue indecoroso gritar, chorar ou se exprimir sem comedimentos. Ora, por que não? A impassibilidade e a frieza não são provas de respeitabilidade.

A vida é uma brincadeira. A vida é um jogo. A vida é um carro na contramão. São frases feitas, são metáforas de efeito. Eu sei. Porém, são muito melhores de que as sem gracezas bem comportadas de um tipo de gente que só sabe se levar a sério!

Na verdade – eu digo para a moça que me entrevista – a vida corre muito depressa. Mais depressa que aquele coelho branco de Alice, que Lewis Carroll criou. Quando menos se espera, pluft! A vida se vai como uma pluma carregada no vento. E só quem tem consciência de que a vida é assim, uma coisinha tão frágil, tão preciosa e tão plena de fantasias, é capaz de chorar e se descabelar quando a tristeza ou o desespero roem como um rato que rói o coração. E é capaz de rir de si mesmo, quando diz uma bobagem ou tropeça em uma pedra.

É desse tipo de gente que eu gosto – falo.

A moça olha para mim com seus olhos cor de outono. Finalmente parece que ela me entende. Então saímos nós duas. E vamos tomar um café.

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3 comentários sobre “da série leituras

  1. DIA DESSES MANDEI UMA MENSAGEM PARA ANA LAURA, MAS ACHO QUE NÃO FOI ENVIADA, VOU TENTAR REPETIR O COMENTÁRIO QUE VALE TAMBÉM PARA ESSA CRÔNICA: QUE BOM QUE VOCÊ ESCREVE TÃO LINDO ASSIM. QUE BOM QUE QUE VOCÊ SEMPRE TOCA MEU CORAÇÃO. QUE BOM QUE VOCÊ EXISTE. QUE BOM QUE VOCÊ É MINHA FILHA. PROSSEGUE E PERSEVERA! BJS.

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